MACHADO DE ASSIS VERSUS GUIMARÃES ROSA. SERÁ?


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No dia 27 de junho comemorou-se o centenário do escritor Guimarães Rosa. Muito se publicou a respeito: biografia, resumos das principais obras e das famosas andanças desse mineiro pelo interior. Ele sempre buscou traduzir a alma sertaneja. O que me instigou a escrever esse post, entretanto, foi uma questão levantada pelo jornalista Daniel Pizza na Continente desse mês. Disse ele: “Suspeito que Joaquim Machado de Assis não gostaria de João Guimarães Rosa. Machado era a favor de uma linguagem clara, sem neologismos, com pontuação corrente. Era avesso ao misticismo e tinha um olhar concentrado nos costumes urbanos...” Ora, Machado de Assis diferenciava-se da maior parte (senão de todos) dos escritores da sua época justamente por ser um “analista literário” da alma humana.

Guimarães Rosa fazia a mesma coisa, apenas o objeto de estudo dele era o homem do interior. Discordo do Daniel, acho que o “Bruxo do Cosme Velho” gostaria sim do Guimarães Rosa. Quanto ao argumento de que o autor de “Grande Sertão: Veredas” entendia Machado de Assis como “um pessimista, que tinha uma visão desolada da natureza humana”, entendo como uma mera observação que não diminuiu em nada a imagem do grande escritor. Aliás, dizer que ele tinha essa ou aquela visão da natureza humana é uma confirmação de que ele inaugurou a literatura realista por aqui. Enquanto a maioria dos escritores descrevia paisagens e o cotidiano social, ele inovou. O mesmo fez Guimarães Rosa, não se limitou a descrever paisagens, ele as interpretou. Viva a literatura brasílica!

MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE.O DOCUMENTÁRIO PROIBIDO PELA REDE GLOBO

“Brazil: Beyond Citizen Kane”, é o nome de um documentário da BBC (Simon Hartog -1993), cuja exibição em território brasileiro está proibida desde a década de 90, quando ele foi concebido. Motivo: o documentário traça uma radiografia completa do nascimento, ascensão e hegemonia da Rede Globo no Brasil. Até a popularização da internet existiam poucas cópias desse documentário circulando no país. O filme apresenta depoimentos de peso que falam sobre o que seria “o quarto poder no Brasil”, dentre eles: Luiz Inácio da Silva (antes de ser presidente), Chico Buarque, Leonel Brizola, Washington Olivetto, Walter Clark (sua participação na história da Globo foi tema de um post nesse blog) e Armando Nogueira. O polêmico documentário é dividido em quatro partes: a primeira mostra o surgimento da Rede Globo e sua íntima relação com o regime militar. A segunda parte fala sobre o contestado acordo entre a Rede Globo e o grupo Time-Life. A terceira parte questiona o enorme poder de Roberto Marinho e cita o drama envolvendo a morte de Tancredo Neves. A quarta parte é a mais polêmica. O documentário tenta desvendar o que eles chamam de “mecanismos de manipulação” da Rede Globo, acentuando o seu papel direitista. O contundente documentário cita ainda: * A suspensão da concessão da TV Excelsior, única a se opor abertamente ao regime militar. * A oposição velada da Rede Globo ao movimento Diretas Já. * A tentativa de fraude nas eleições do Rio de Janeiro em 1982, para prejudicar o candidato Leonel Brizola * Edição do debate Collor – Lula, favorecendo o candidato Collor. Mostra dois importantes jornalistas que trabalhavam na Globo em 1989 (um deles, o Armando Nogueira) confirmando a manipulação do debate. Além de ser um importantíssimo relato da história política do Brasil da ditadura militar, o documentário levanta questões importantíssimas sobre o poder da mídia e a manipulação das massas. Vale conferir.
ASSISTA AO VÍDEO DIVIDIDO EM TRÊS PARTES
CLICANDO NO LINK ABAIXO
CONFIRA NA JANELA DE VÍDEO AO LADO, O TRECHO DO DOCUMENTÁRIO QUE FALA SOBRE A EDIÇÃO TENDENCIOSA DO DEBATE LULA-COLOR, DE 1989
OBS: O VÍDEO COMPLETO ESTÁ DISPONÍVEL EM FORMATO AVI (DUBLADO EM PORTUGUÊS) NO SITE DO eMULE.

O BRASIL É MUITO MAIOR DO QUE ELES PENSAM

Na semana passada tive um grande susto que me alertou para uma velha questão: o bairrismo.O jornalista Chico Pinheiro abriu o Jornal Nacional do dia 14 com a manchete:”morre o maior intérprete do carnaval brasileiro”. Pensei: Claudionor Germano (maior cantor de frevos de Pernambuco) morreu! Corri pra frente da tv e vi que falavam de Jamelão, o cantor de samba. "Como pode ser o maior intérprete do carnaval brasileiro se ele jamais cantou frevo?" ( Perguntei-me vendo a reportagem).

O carnaval de Olinda e Recife é gigantesco e importantíssimo. E o carnaval baiano? E o carnaval amazonense com os seus dois bois? Será que o mestre Jamelão brilhou em alguma dessas festas? Lembrei-me então do Jomar Muniz de Brito (cineasta e professor pernambucano) criticando o livro de Zuenir Ventura: “ele vê 68 como uma coisa apenas carioca” .Lembrei-me dos livros e sites da internet que colocam a “Rádio Sociedade” do Rio de Janeiro, fundada em 1923, como a primeira do Brasil e ignoram a “Rádio Clube de Pernambuco” fundada em 1919 (com registro da época para comprovar). Até Juca Kifouri, que sempre ignorou o futebol do nordeste, andou escrevendo sobre a exacerbação do bairrismo do centro-sul. Jamelão foi o maior intérprete do carnaval carioca, assim como Claudionor Germano é o maior em Pernambuco, Armandinho Dodô e Osmar na Bahia... etc.,etc. O Brasil é muito maior do que eles pensam.

EU VEJO TV

De tempos em tempos, tenho, com algum amigo, um embate em que o tema é a televisão. As pessoas sempre me criticam porque eu falo que assisto a tv. Na verdade, eu me considero um produto da tv. Cumpro esse ritual de me prostrar (hoje com muito menos gosto que antes, é certo) diante da telinha desde que me entendo por gente. Se algum dia eu decidir escrever as minhas memórias, um capítulo será dedicado a esse assunto. Como eu poderia esquecer as incontáveis aventuras de “Shazan & Xerife” ? E o “Vila Sésamo” ? Educativo e divertido como poucos.

Conheço todos os personagens de “Hanna- Barbera”, os heróis da Marvel, as grandes novelas da década de 70. Contrariando a tese de quem critica a tv, eu fui à escola, depois à universidade, depois me pós-graduei, passei em concursos, etc., etc. Serei eu uma exceção à regra? Claro que não! O mundo é recheado de estereótipos, colocar a tv como grande vilã da cultura é mais um. O que falta nesse país é investir mais em educação. Quem freqüenta a escola e se informa saberá distinguir o que é certo ou errado sem precisar da opinião do Arnaldo Jabor. A seguir, cenas do próximo capítulo.... rsss

A SALA E A CELA

Nos últimos meses uma questão vem me tirando o sono: por que eu ainda sou professor? Esse dilema nada tem a ver com a questão salarial. O problema todo está na sala de aula. O quadro é absolutamente desolador. Os alunos não encaram mais a escola como algo importante. A sala de aula é uma arena de guerra. Constantemente o professor é interrompido por piadas, brincadeiras de mau gosto, todo tipo de insultos. O aluno sente-se no direito de desrespeitar o mestre e os poucos colegas que querem estudar. A escola está se transformando num imenso parque de diversões. O tempo vai passar e esses “alunos” que não compreendem a importância da escola, vão ficar pelo caminho. Pior, talvez sejam vencidos pela vida.

Fora dos muros da escola, o comportamento moleque da sala de aula é visto como comportamento marginal. O patrão não vai ter a paciência que o professor tem. O professor põe pra fora da sala, a polícia põe pra dentro da cela. Fora dos muros da escola o garoto que picha as paredes, que quebra as bancas, vai ser tratado como delinqüente. Repito, a vida é duríssima, não tolera a falta de seriedade. Você quer saber por que eu ainda sou professor? Bom, acho que é porque eu fui um aluno peralta que descobriu a tempo o valor da escola. A esperança de que meus alunos também descubram me faz insistir nesse duro ofício.