A FORÇA DO BELO E O PRECONCEITO NOSSO DE CADA DIA

Outro dia, numa dessas salutares conversas entre amigos, falávamos sobre a forma preconceituosa com que os países do chamado “Primeiro Mundo” tratam os brasileiros. Em uma das escolas em que trabalho, localizada na periferia de Olinda, em Peixinhos, de tempos em tempos aparecem os estudantes de intercâmbio, que passam um período frequentando a escola e participando do cotidiano das crianças. Certa vez, percebi num desses estudantes estrangeiros (oriundo da Irlanda) um certo asco ao observar as crianças e a estrutura precária da nossa escola. Dava pra ver no rosto da garota que ela estava chocada e amedrontada.

Obviamente, a leitura que fiz dessa imagem produziu em mim um sentimento de indignação. Tempos depois, num recuo de memória, lembrei-me do tempo em que trabalhava como vendedor numa loja de móveis de luxo. Depois da primeira semana transitando entre moveis laqueados e tantos outros itens de decoração, passei a achar a minha casa muito feia. Na época eu era muito jovem, é certo, mas lembro-me bem do quanto me tornei preconceituoso e passei a desdenhar dos móveis das casas por onde passava. Achava tudo feio.

Automaticamente fiz uma analogia e me coloquei no lugar da menina irlandesa, naturalmente pouco acostumada a ambientes de pobreza extrema, e entendi o comportamento que em princípio reprovei. A força do belo, mesmo sendo um conceito subjetivo, leva-nos a uma estupidez como essa. Outro exemplo: Costumamos dizer que “perto do Shopping Recife tem uma favela”. A comunidade do Entra a Pulso, localizada na entrada do Shopping, estava ali muito antes da construção do grande centro de compras. Na verdade, o shopping é que está perto da favela mas a força do belo nos induz a inverter os parâmetros de observação.

Quem trabalha com arte e arquitetura, por exemplo, enxerga as coisas sem se deixar levar por esse julgamento superficial. O velho casarão em ruínas é visto como uma obra de arte danificada e não como um imóvel velho que deve ser demolido. Criar parâmetros a partir do que a sociedade classifica como belo, é uma forma de exclusão comum nos dias de hoje. É por isso que o cabelo crespo é chamado de “ruim” e a mulher gorda é chamada de feia. Termino esse breve post parodiando Vinícius: “As bonitas que me perdoem, mas beleza é subjetivo”.

APRENDENDO A APRENDER

Antigamente quando frequentávamos a escola (dita tradicional) os professores despejavam conteúdos de forma sistemática executando o que Paulo Freire, sabiamente, chamava de “educação bancária” em que o aluno era um mero depositário de conhecimentos. Ao questionar essa forma inglória de se lecionar, numa dessas rodas de amigos, alguém repetiu aquele adágio presente em muitas palestras de auto-ajuda: “não dê o peixe, ensine a pescar”. Verdade seja dita, meu desencanto com o sistema público de ensino (no que se refere ao aluno) me faz pensar nisso de vez em quando.

A cada dia sedimento a ideia de que, mais que ensinar conteúdos, o importante é aprender a aprender. Quando você tem base pode extrair conhecimento de quase todo lugar. Lembro-me da minha professora de didática lá da Federal, “Roynolka” (não lembro se escreve assim, ela era húngara), a querida professora Roy. Em uma de suas aulas ela usou um gibi da Turma da Mônica. Um dos alunos questionou: “professora, um gibi de história em quadrinhos numa aula de didática na Federal ?”.

Bom, o fato é que a aula era sobre saber reconhecer a realidade e as dificuldades dos alunos. O gibi em questão era do “Chico Bento”. Na historinha ele era perseguido pela professora porque chegava sempre atrasado e às vezes dormia na aula. Num belo dia, a professora dirigia-se para a escola e passou pela zona rural da cidade. De longe ela viu o Chico Bento trabalhando duro no roçado e entendeu o porquê dele chegar sempre atrasado. Apesar de ser apenas um garoto, trabalhava duro e acordava muito cedo.

A professora Roy, nessa aula com material didático inusitado, mostrou o valor de saber 'aprender a aprender'. Nessa mesma aula relatei um fato ocorrido comigo enquanto assistia ao capítulo de uma novela. Num dado momento, numa mesa de restaurante, formou-se um triângulo amoroso: Edu (Reynaldo Gianecchine), Helena (Vera Ficher) e Miguel (Tony Ramos). A filha de Miguel, vendo a cena, comentou: “Veja só um triângulo amoroso inusitado”. O amigo dela, que estava ao lado, completou: “E é um triângulo escaleno”. Os dois riram e a cena seguiu. “Triângulo escaleno?” fiquei pensando. Ignaro em matemática, fui ao dicionário e aprendi que se tratava de um triângulo com lados diferentes. Fiz a analogia e entendi o comentário visto na novela.

O problema é que grande parte das pessoas que assiste às novelas não tem base para extrair algum conhecimento daquela fonte (exígua, reconheço). Falta saber aprender a aprender. Quem tem estrutura absorve cultura nas mais inusitadas fontes. Sorte que me ensinaram a pescar.

RADIOLA VOL. 01 – PLEBE RUDE – O CONCRETO JÁ RACHOU

O famoso mini-LP da banda brasiliense, Plebe Rude, é um dos maiores ícones sonoros da década de oitenta. É um daqueles discos clássicos presentes em quase todas as listas de quem curte o rock brasileiro. Ouvi muito esse disco. A história da Plebe Rude tem uma curiosidade sempre citada (com ares de honra) nas entrevistas que a banda dava (e ainda dá): “Muita gente não sabe, mas a Legião Urbana começou abrindo os shows da gente lá em Brasília”. O fato é que seus conterrâneos, liderados por Renato Russo, alcançaram o estrelato, mas isso é outra história.

O Concreto Já Rachou” eternizou dois clássicos: “Até Quando Esperar” (Ressuscitada na trilha sonora da novela global 'Tempos Modernos') e “Proteção”, canção atualíssima apesar de ter sido escrita há mais de 25 anos. Seguindo a linha da crítica com cunho político (Influência de Brasília), o disco traz “Johnny Vai A Guerra (outra vez)”, que é uma espécia de “Era um garoto que como eu...” aquela versão dos “Incríveis” que todo mundo conhece. Na faixa “Minha Renda”, a banda dá uma alfinetada na interferência dos produtores que sempre tentavam pasteurizar as músicas para poder tocar no rádio e na tevê. Curiosa foi a participação do padrinho da banda, Herbert Viana, que cantou nessa faixa o final do inusitado verso “Já sei o que fazer pra ganhar muita grana / Vou mudar meu nome para Herbert Viana”. Completam o disco as faixas: “Sexo e Karatê”, “Seu Jogo” e “Brasília”.

Em 2006, a Plebe Rude voltou com uma nova formação: o baterista Gutje e o guitarrista Jander Bilaphra deixaram a banda e foram substituídos pelo legendário guitarrista Clemente (ex-Inocentes) e Txotxa (ex Mascavos Roots).

O “Concreto Já Rachou” foi lançado em 1985 pela gravadora Emi-Odeon e ainda encontra-se em catálogo.

MINHA BIBLIOTECA – VOL. 01 – VIRANDO A PRÓPRIA MESA

Pode um livro que é obrigatório em muitos cursos de economia não ser chato? Pois bem, “Virando a Própria Mesa”, um livro auto-biografico escrito em 1988 pelo jovem (na época) empresário Ricardo Semler, escapou das chatices que envolvem o universo econômico. A obra me foi apresentada, na época do seu lançamento, pelo dileto amigo (e dublê de poeta) Beto Borges.

Usando linguagem simples e humor ácido Ricardo descreve sua trajetória à frente da Semco, empresa que herdou do pai quando contava apenas 28 anos. O conjunto de inovações que ele experimentou quando assumiu a massa quase falida deixada pelo pai, é o ponto alto do texto. Mais de duas décadas depois da publicação, o livro é absolutamente atual. Essa é uma prova inconteste do pioneirismo do jovem empresário.

O livro não trata apenas de questões empresariais. Ricardo fala de sua vida, dos paradigmas quase dogmáticos que teve que suplantar para impor sua forma de gerir. O interessante é que, mesmo tendo uma formação acadêmica sólida, com pós-graduação em Havard, Ricardo se sobressaiu inovando em setores que as empresas da época davam pouca importância: humanização das relações interpessoais, redução da jornada de trabalho, só para citar os mais polêmicos.

Uma das mensagens mais presentes no texto do Semler é a desobediência a várias “verdades” pré-estabelecidas. Sua narrativa sugere, nas entrelinhas, sentimentos quase que anárquicos no melhor sentido dessa ideologia. Quando assumiu a empresa do seu pai, ele ignorou o organograma existente . A empresa teve que se adequar às suas mudanças, quando o normal, quase sempre, é o inverso. O êxito de Semler, segundo acentua no livro, baseou-se no tripé: Capacidade para identificar a necessidade de mudanças (Complemento com um pensamento do filósofo Pascal: 'Não me envergonho de mudar de ideia porque não me envergonho de pensar'), conquistar o respeito e a participação dos funcionários e ser flexível.

O sucesso de Ricardo Semler conferiu-lhe um prestigio internacional. Por duas vezes foi aclamado pelo “Wall Strett Journal” como líder de negócios do ano (1990 e 1992). Em 2002 o best seller "Virando a Própria Mesa" foi relançado pela editora Rocco. Clique aqui e confira a capa.

SER PROFESSOR EM PERNAMBUCO É ESTAR NO FIM DA FILA

Sou professor da Rede Estadual de Pernambuco desde 1998. Em pouco mais de dez anos, tenho visto com bastante tristeza a decadência dessa (outrora) nobre profissão aqui em Pernambuco. A questão salarial, numa analogia bem simples, lembra um nadador que se esforça em dar braçadas enquanto alguém lhe segura as pernas. Dessa forma, o quadro de docentes do estado de Pernambuco vem amargando a última colocação no ranking de salários no Brasil, que já não é grande coisa.

O que mais irrita os profissionais de educação em Pernambuco, é a hipocrisia com que o Governo do Estado trata essa questão. Propagandas veiculam a imagem de uma escola que não existe. Reformas de prédios, kits para os alunos e achatamento salarial para os professores. O principal articulador do processo de educação, o professor, é tratado como um detalhe sem importância nessa grande ilha da fantasia. A escola das propagandas não trata das agruras dos docentes.

A maioria dos professores da Rede Estadual de Pernambuco tem o seguinte perfil:

*Sobrevive com o salário comprometido por vários empréstimos consignados.

*Acumula vários vínculos empregatícios para tentar viver com um pouco mais de dignidade.

*Tem a saúde comprometida por acumular vários vínculos empregatícios. Vive estressado, sem voz e sem tempo para a família.

*Não consegue ministrar uma aula de qualidade porque lhe falta tempo para prepará-las.

*Trabalha sob pressão porque o acúmulo de atividades toma muito tempo impedindo que as suas atividades sejam cumpridas nas datas estabelecidas pela escola. Para agravar mais essa situação a Secretaria de Educação elaborou um diário de classe com muitos detalhes, só adequado à realidade do professor que trabalha em jornada única.

*Tem baixa autoestima porque não é respeitado na sala e é tratado pela imprensa como um derrotado.

Sou professor, trabalho num país que paga salários baixos. Esse país que paga salários baixos é dividido em estados. Eu trabalho no estado que paga o salário mais baixo. Eu estou no fim da fila.

Professor Edvaldo Cavalcante de Oliveira