EU, BEATLEMANÍACO

Não lembro exatamente quando, mas como descobri os Beatles. Era garoto ainda, no final da década de 70, quando ouvi no rádio de um bar, próximo à minha casa, “I Want To Hold Your Hand”. Poderia criar uma descrição lírica, inventando, como muitos, dizer que parei, me emocionei e passei a ser fã, mas não foi assim que aconteceu. Gostei muito da música e me interessei em saber que banda “nova” era aquela. Essa é a lembrança mais remota que tenho do meu contato com a magnífica obra dos Beatles.

Efetivamente, o trágico episódio do assassinato de John Lennon, ocorrido no final de 1980, abriu as portas para que os Beatles passassem a fazer parte da minha vida. Fui descobrindo disco a disco. Já contei aqui a historinha sobre como descobri a belíssima “In My Life” que chegou à minha casa pelas mãos do meu grande amigo Lito. Minha paixão pelos Beatles determinou também o meu ciclo de amizades. Colecionávamos revistas, cifras de violão, fitas K7 e os adoráveis LP's. Era tudo muito difícil naquela época. Só pra se ter ideia, eu tinha uma fita que gravei encostando o gravador no alto-falante da tevê. Era um “Globo Repórter” especial, sobre os Beatles, que ouvíamos de vez em quando. Som abafado, mono e com interrupções no áudio: meu pai falando, minhas irmãs reclamando. Mas ouvíamos tudo com um prazer indescritível.

Esses momentos lúdicos de beatlemaníacos temporões eram vistos com desprezo pelos garotos da época. Éramos tratados como tolos porque dávamos muita importância ao simples ato de ouvir música. Anos depois constastaria que aqueles momentos, de celebração musical, tiveram uma considerável importância na minha formação. Sou o que sou (mesmo que não seja muito) porque ouvi (e ouço) Beatles. Devo muito a eles. Isso é fato!

Por duas vezes experimentei o prazer de celebrar os Beatles como se estivesse na década de 60 ou 70 na Inglaterra. Aqui mesmo no Recife, uma banda de baile chamada Alcano realizou dois espetáculos memoráveis, em praça pública, em homenagem a Lennon e aos Beatles. Os shows aconteceram em 1986 e 1987 no Parque 13 de Maio, coração da cidade. Inesquecível! Uma imensa área verde lotada de beatlemaníacos e bichos-grilo de toda espécie. Essas boas lembranças vieram à tona porque me preparo para reviver o universo Beatle num show – cover, é claro – que se realizará nos próximos dias aqui no Recife. É a magia de volta!

Dedico esse post ao amigo Sidclay, que teve o prazer de assistir a shows de dois Beatles. Ave Sid!

EU, O VIOLÃO, O MAESTRO NUNES E UMA BRISA ETÍLICA

Por ocasião da comemoração do dia mundial do rock, andei chafurdando meu passado musical para desencavar algumas fotos desse período. Acabei tomado pela nostalgia e viajei nessa lembrança. Na verdade, enveredei no caminho da música tardiamente. Tinha 21 anos quando decidi me matricular na escolinha de música da Banda de Frevos do Nordeste, mantida heroicamente pelo lendário Maestro Nunes, autor do conhecido frevo “Cabelo de Fogo”, um hit do carnaval pernambucano. Era 1986, época de Sarney e do Plano Cruzado, que congelou os preços das mercadorias e eu pude comprar meu violão Gianini, série estudante, que acabei batizando de John em homenagem ao meu beatle preferido.

Meu primeiro dia de aula virou fábula entre os amigos. Já contei essa história um milhão de vezes. Cheguei um pouco atrasado e na pequena sala decorada com notas e claves, já estava uma meia-dúzia de alunos. Estranhamente, ninguém sentado em frente ao birô do velho mestre. Todos bem localizados em lugares afastados. Achei que era medo da aula e resolvi sentar na primeira fila. Ouvi alguns risinhos disfarçados mas permaneci impávido, prostrado diante do birô à espera do mestre.

Alguns minutos depois, entra o velho maestro com a aparência debilitada e mãos trêmulas. Depois de uma breve apresentação ele nos convidou à primeira aula de solfejo: “Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó – Dó, Si, Lá, Sol, Fá, Mi, Ré, Dó”. O breve cantarolar dessas notas jogou no meu rosto uma brisa etílica que me deixou enebriado, quase bêbado. Sentei-me duas fileiras atrás e contemplei, debaixo dos disfarçados risos dos outros alunos, o restante da aula.

Minha passagem pela escola da Banda de Frevos do Nordeste foi breve, mas percebi o quanto o dom é importante. Enquanto eu, literalmente, brigava com meu violão para aprender os primeiros acordes, via o jovem Carlos, ex-menino de rua, que depois de alguns meses em contato com o instrumento, passou a dar aulas (e shows) na escola. Que ódio! Brigo com o violão ( e com a guitarra) até hoje, menos do que devia, é certo. Ficamos um pouco mais íntimos, mas o tal do dom, esse me ignorou desde o nascimento.

Abaixo, um vídeo raro em que o velho mestre rege uma orquestra que interpreta o grande frevo "Cabelo de Fogo".

O LIVRO DE ELI – MAIS DO MESMO

Conferi, hoje, o novo filme do Denzel Washington. Super produção, super divulgação, um site oficial belíssimo (confira aqui), mas o filme não passa de uma colagem de ideias já experimentadas na telona. No começo, lembra muito “Eu Sou A Lenda”, estrelado por Will Smith. A mesma atmosfera apocalíptica: a solidão de um planeta devastado. Só faltou o cachorro. Quando surgem outros personagens na trama, é absolutamente impossível não se lembrar do clássico “Mad Max”. Na primeira cena de ação, Eli é atacado por salteadores que usam um figurino parecidíssimo com o do filme do George Miller.

E as referências anteriores não param por aí. Quando Eli chega à cidade dominada por Carnegie (Gary Oldman) (que vive alucinado à procura do livro) o filme lembra outra produção do gênero apocalíptico: “Waterworld”, estrelado por Kevin Costner. A forma como se referem à água em “O Livro de Eli” é a mesma como se referiam à Terra em “Waterworld”. A super valorização de gêneros de primeira necessidade e um lugar mítico imaginado como ideal pra se viver num planeta devastado.

Comparações à parte, o argumento do filme é muito fraco. Tentaram dar um tratamento religioso ao eixo da trama com a referência à Bíblia, tratada, genericamente, como “o livro”. Claro que a saga de Eli tem interpretação livre, é bastante subjetiva. Ele protegeu o livro achando que todos os outros exemplares do planeta – algo inimaginável até na ficção – haviam sido queimados. É uma mensagem de fé, carregada de lirismo. Ele não preservou apenas o livro, mas também a sua fé. O filme tem algumas mensagens subliminares. O legado cultural da humanidade, na história, está protegido na antiga e lendária prisão de Alcatraz. O local construído para punir tornou-se um centro de esperança. Outras: o filme dá uma alfinetada em Dan Brown quando Carnegie manda queimar alguns livros, entre eles “O Código Da Vinci”. Aplaudi! Carnegie queria usar a Bíblia para conseguir mais poder, algo comum nos nossos dias. O veredito final é que o filme ficou devendo.

Ficha Técnica

Título original: The Boock Of Eli

Título no Brasil: O Livro de Eli

Direção: Albert Hughes e Allen Hughes

Roteiro: Gary Whitta

Fotografia: Don Burgess

Duração: 118 min

Lançamento: 18 de Março

Elenco: Denzel Washington, Mila Kunis, Michael Gambon, Jennifer Beals, Gary Oldman, Evan Jones, Ray Stevenson.

HOJE É DIA DE CELEBRAR O BOM E VELHO ROCK AND ROLL

Para as pessoas normais o dia 13 de julho é um dia como outro qualquer mas para nós, roqueiros, é dia de celebração. Desde que Bob Geldof organizou o lendário show “Live Aid”, em 1985, a data foi oficializada como dia internacional do rock. Lembro-me bem do show e da sua grande repercussão. Ouço rock desde que me entendo por gente, algo como uma terapia. Se estou triste escuto, se estou feliz escuto, faz parte da minha vida. Exatamente por isso, esse ano, não vou celebrar os grandes ídolos. Abaixo, dez momentos meus de felicidade regados e/ou influenciados pelo mais puro rock and roll:

Cartaz do show “Palavra de Protesto”, de uma antiga banda minha, “Arte Final”. Esse show aconteceu em 1988 no espaço cultural “Arteviva”, aqui em Recife.

Exercitando o vício. Como diz o mestre Caetano na canção “Tigresa”: “Como é bom poder tocar um instrumento”.

Discos e mais discos, todos de rock. O paraíso é a loja de discos Flower, aqui em Recife.

Essa aí com cara de mau foi no Abril Pro Rock de 2006, ano em que Os Mutantes fizeram um antológico show. Inesquecível!

Essa foi no show do Iron Maiden, um dos melhores a que fui em toda a minha vida. Quando eu era garoto ficava ouvindo Iron imaginando esse grande dia. Aconteceu e eu sai regozijado. Sem palavras!

Ladeado por dois grandes amigos. A minha esquerda, Mané Bass, baixista dos “Templários”, minha nova banda. A minha direita o Grande Carlos Dornelas, anormal assumido. Amigos de longas datas e muito rock and roll.

Essa momento foi capturado numa exposição sobre os Beatles. Beberei dessa fonte até morrer.

Com minha filha mais nova, Thais, minutos antes do grande show Titãs & Paralamas. Vinte e cinco anos depois, revi duas grandes bandas que fazem parte da minha vida.

Jurássica foto da minha primeira banda, “Glenardi”, tirada na “Casa da Cultura”, antiga “Detenção do Recife”. O clique foi feito em 1986.

Recuperando o fôlego para aguentar a maratona de bandas no Abril Pro Rock de 2010.

CAZUZA, ZECA E AS COINCIDÊNCIAS DA VIDA

Sempre que me lembro da década de 80, da parte musical especificamente, o nome de Cazuza surge como um marco. Não só pela sua maravilhosa contribuição musical, mas pela sua luta contra o monstro da AIDS. Cazuza foi valente ao encarar a doença e a angústia da espera da morte. Já disse aqui, em outro post, que não vejo beleza nos exageros cometidos por ele. Entender, respeitar sua opção de vida, é uma coisa. Exaltar a trajetória suicida que ele se impôs, jamais. Podem me atirar pedras, trago essa convicção comigo desde a década de 80.

Mas essa polêmica, em torno da sua vida pessoal, é insignificante diante da grandeza desse artista. Cazuza era talentosíssimo. Soube se aproveitar da burguesia e das facilidades inerentes ao fato de ser ele filho de um diretor de uma grande gravadora. Esses detalhes ajudaram Cazuza a gravar discos, apenas. Seu enorme talento é que proporcionou o grande sucesso. Ele não tocava nenhum instrumento mas escrevia letras e, por vezes, melodias. Quando perguntado sobre como conseguia a proeza de escrever melodias sem tocar nenhum instrumento ele explicou: “Assim como os grandes sambistas do morro, eu uso uma caixa de fósforos para batucar”.

Com o perdão do pífio trocadilho, Cazuza era exagerado. Do seu circulo de amigos fazia parte uma exótica criatura: Ezequiel Neves ou “Zeca Jagger”, como Cazuza o chamava. Ele foi o “Malcolm McLaren” do Barão Vermelho e da carreira solo do Cazuza. Mais que isso, Zeca foi parceiro em grandes sucessos como “Exagerado” e “Codinome Beija Flor”. Os dois tinham uma química perfeita na arte e na vida real.

No dia 07 de julho passado, data em que se completavam 20 anos da morte de Cazuza, Ezequiel Neves morreu aos 74 anos de idade. Essa coincidência baseada no cabalístico número sete, para os místicos, sugere que os dois marcaram um encontro. Seja como for, Cazuza e Zeca cumpriram um importante papel no pop rock brasileiro e na emepebê. Particularmente devo muito a eles por terem tornado a minha vida mais feliz em vários momentos. Paz e felicidade aos dois!

AVE FRIDA!!!!!!

DEMÔNIOS DE SÃO PETERSBURGO – A VIDA DE DOSTOIÉVSKI

Pareceu-me estranha a ideia de um filme italiano sobre a vida do grande escritor russo Dostoiévski. Mesmo desconfiado, decidi assistir já que o diretor do filme, Giuliano Montaldo , era um especialista em biografias, já havia filmado sobre “Giordano Bruno”, “Marco Polo”, “Sacco e Vanzetti”.

A conturbada vida do escritor Fiódor Mikhailovich Dostoiévski é contada tendo como base o movimento revolucionário russo que derrubou o império burguês. A ideologia que insuflou os intelectuais revolucionários tinha como ponto fundamental as ideias propagadas por Dostoiévski nos seus livros. Lidar com a ideia de que pessoas estavam sendo mortas por causa disso mexeu com a cabeça do escritor.

O filme mostra todo o sofrimento vivido por Dostoiévski: os anos de trabalhos forçados na Sibéria, a rejeição dos outros presos, que o tinham como um intelectual que traiu o movimento, e as dificuldades financeiras. Dostoiévski escrevia sob pressão de um editor que o obrigava a produzir compulsivamente. Foi nesse período difícil que ele conheceu “Anna Grigorievna Snítikin”, uma estenógrafa com quem se casaria mais tarde.

O título do filme faz alusão à célebre obra “Os Demônios”, em que Dostoiévski criou uma trama ficcional para contar uma história verídica, o assassinato do estudante I. Ivanov. O niilismo do grupo extremista da obra literária se faz presente no filme na desesperada luta para derrubar a burguesia imperialista. O filme retrata um Dostoiévski humano, vivendo uma eterna crise, imagem que vai de encontro à figura mitológica eternizada nos livros de história e na mídia.

Miki Manojlović, o ator sérvio que interpreta Dostoiévski, merece uma menção especial. Absolutamente convincente no papel, ele compôs um personagem denso que leva o espectador a viajar no filme e na dramática história do grande escritor. Recomendo.

Ficha Técnica

País de origem: Itália

Título original: I Demoni Di San Pietroburgo

Título em português: Demônios de São Petersburgo

Gênero: Drama

Produção: Casablanca Filmes

Direção: Giuliano Montaldo

Elenco: Miki Manojlovic, Roberto Herlitzka, Carolina Crescentini, Anita Caprioli

Ano de lançamento: 2008

O SENHOR TEMPO E A INVERSÃO DE ALGUNS CONCEITOS

Hoje em dia é muito comum ver as mulheres exibindo o bronze em roupas sumárias. A imagem de um corpo bronzeado é motivo de orgulho, mas não foi sempre assim. Num passado não tão remoto as pessoas, sobretudo as mulheres, das classes dominantes, tinham o hábito de se proteger do sol. As mulheres saíam à rua sempre amparadas por um guarda-sol. Proteger a brancura da pele era o mesmo que proteger a imagem, o status de quem pertencia à alta sociedade.

Os menos desprovidos de posses tinham que trabalhar duro normalmente debaixo de um sol forte, já que no passado as atividades agrárias predominavam. Ter a pele bronzeada, portanto, era sinônimo de pobreza. O que hoje simboliza beleza e sensualidade, no passado representava dor e dificuldade de vida.

Outro conceito que sofreu inversão, pela ação do senhor tempo, foi o culto ao ócio. Na época dos filósofos gregos, o “não fazer nada” era , com o perdão do paradoxo, uma atividade nobre. O ócio, nesse caso, referia-se às atividades braçais. Trabalhar, dar duro, como se diz hoje em dia, era uma atividade que não dignificava o cidadão, já que era desempenhada por escravos e semi-escravos. A palavra “trabalho”, diz o dicionário etimológico, vem do verbete latino “tripalium”, nome de um instrumento de tortura medieval em que as vítimas ficavam dependuradas de cabeça para baixo para morrer lentamente, por sangramento. O trabalho, que na sua origem estava ligado à tortura, depois da ação do senhor tempo, passou a ser uma atividade nobre, que dignifica o homem.

A minha banda é do tempo em que Camisa de Vênus era palavrão”. Essa frase é de autoria do músico Marcelo Nova, líder da banda de rock Camisa de Vênus. Até a década de 70, mais ou menos, a camisa-de-vênus era uma forma de proteção (e contracepção) que transitava no submundo como algo proibido. Depois do surgimento da AIDS, o uso desse preservativo passou a ser a mais comum forma de proteção. Na verdade, no passado, a camisa-de-vênus tinha a mesma função, mas era marginalizada. A frase do Marcelo Nova mostra que o senhor tempo derrubou um tabu e mudou um conceito.

O que hoje é, poderá não sê-lo amanhã se assim desejar o senhor tempo.