DESTRINCHANDO UM FREVO

Qualquer folião que brinca o carnaval em Pernambuco, seja nativo ou turista, tem na ponta da língua a frase do verso inicial que aclama figuras tradicionais do carnaval pernambucano: “Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelom cadê seus blocos famosos...” Mais adiante a canção exalta também “o velho Raul Morais”. O frevo "Evocação Nº1", escrito em 1957 pelo maestro Nelson Ferreira, é um hit perene do carnaval  de Pernambuco mas as figuras ilustres aclamadas na letra são quase desconhecidas por quem cantarola e se diverte no reinado de Momo.

Esse breve post revela quem são essas figuras homenageadas pelo maestro Nelson Ferreira que alegram o carnaval de Pernambuco há mais de 50 anos:

Felinto de Morais: integrante do bloco lírico "Apôis Fum", do bairro da Torre, decantado em outro frevo famoso, “Valores do Passado”.

Pedro Salgado: presidente do Bloco das Flores e grande amigo de Nelson Ferreira.

Guilherme de Araújo: líder do bloco lírico "Andaluzas em Folia" e do “Pirilampos de Tejipió”, ambos também decantados no frevo “Valores do Passado”, de Raul Morais.

Fenelom Moreira de Albuquerque: integrante do bloco lírico Apôis Fum.

Raul Morais: compositor de frevos, integrante do Bloco das Flores e irmão do também compositor Edgar Morais.

O interessante nesse frevo é que ele hoje em dia é cantado de forma nostálgica, como uma referência dos antigos carnavais. Quando foi lançado, em 1957, ele também tinha o tom da nostalgia já que as figuras ilustres homenageadas por Nelson Ferreira brilhavam no carnaval da década de 20, quase três décadas antes do lançamento do famoso frevo canção.

Abaixo, regozije-se ao som de “Evocação Nº1”, de Nelson Ferreira.

A PIOR IMAGEM É A QUE FICA

Muitos jornalistas se queixaram, nos diversos canais da mídia, sobre as “injustas” críticas direcionadas ao jogador Ronaldo, dito “fenômeno”. Ele se aposentou, declaradamente, por incapacidade física para exercer a profissão. Obviamente, o “Ronaldo Fenômeno” que estão homenageando depois da aposentadoria não é a figura decadente que penou nas últimas partidas do Corinthians. Ele tem do que se orgulhar: foi eleito três vezes o melhor jogador do planeta, foi bicampeão do mundo e o maior artilheiro de todas as copas.

Mas a imagem de fracasso que levou as criticas foi cunhada pelo próprio jogador quando insistiu em continuar tentando jogar futebol quando o físico, visivelmente, não era compatível para tal prática. Ronaldo entrava em campo mais como uma poderosa figura de marketing do que como jogador. Acabou por frustrar os sonhos dos torcedores fanáticos que subverteram as regras da razão acreditando que apenas o nome poderia render tanto quanto o jogador.

Saindo um pouco da seara do futebol, é possível identificar muitas histórias parecidas com a de Ronaldo. Elvis Presley, laureado pelo mundo afora com “rei do rock”, teve altos e baixos na sua carreira. Entretanto, quem imita o rei do rock copia a imagem do Elvis acima do peso, decadente e com roupas extravagantes. Essa é a pior fase do cantor e foi justamente a que ficou eternizada. Nesse período ele vivia à base de barbitúricos e fazia apresentações, quase sempre, nos cassinos de Las Vegas.

O mesmo aconteceu com Michael Jackson. A evolução da sua carreira foi acompanhada por uma bizarra mudança na aparência que culminou numa figura fantasmagórica, esbranquecida que, estranhamente, acabou se eternizando. Qualquer imitador de Michael reproduz a imagem do final de carreira. Ninguém imita o Michael criança ou da fase em que ainda tinha a aparência de negro. Há quem diga que a figura derradeira encarnada por ele não é caricata, afinal, essa é uma observação meramente subjetiva. Mas, para esse humilde blogueiro que vos escreve, aquele rosto deformado e fantasmagórico não é a melhor (tampouco a eterna) imagem do rei do pop.

Para finalizar, lembro-me do Ronaldo da Copa de 2002 (foto acima), quando ele ressurgiu das cinzas depois do vexame de 1998. Parecendo vislumbrar que sua imagem seria, no futuro, objeto de discussão, Ronaldo criou uma caricatura de si próprio e entrou em campo, na final, ostentado um esquisito corte de cabelo (apenas uma moitinha na testa) que foi copiado pela garotada no Brasil que comemorou o título daquele ano. Seja como for, ninguém pode negar que ele é um gigante da história do futebol mundial. Meus respeitos, Fenômeno!

SER PROFESSOR EM PERNAMBUCO, UMA PROVAÇÃO.

Em 1941, os alemães invadiram a cidade de Lviv, na Ucrânia, e promoveram um impiedoso massacre. Cerca de 45 professores e seus familiares foram sumariamente executados. Esse genocídio  fazia parte de uma política de limpeza étnica que os alemães chamavam de “Operação Especial de Pacificação”. Não bastava perseguir e prender as cabeças pensantes, o extermínio foi a saída para aniquilar uma possível insurgência intelectual.

Dando aulas de história, já falei diversas vezes sobre esse triste episódio. Nos últimos meses, aqui no Estado de Pernambuco, além das agruras cotidiana do duríssimo ofício de lecionar em escolas públicas, nós professores, temos que brigar (muito) para que os direitos adquiridos no concurso que prestamos sejam respeitados. Primeiro fomos informados (durante as férias) que os professores efetivos seriam substituídos por contratados. Nós não poderíamos trabalhar em turmas de correção de fluxo. Muitos, incompreensivelmente, não lutaram por seus direitos e hoje estão perambulando de escola em escola tentado refazer seus horários.

Muitos dos que brigaram conseguiram fazer valer os seus direitos e permaneceram nas suas escolas de origem. Houve um encontro com o Secretário de Educação, Anderson Gomes, e ele garantiu, textualmente, que o “professor concursado, como em qualquer lugar do mundo, teria seus direitos adquiridos”. Ao menos nos foi “permitido” continuar no Projeto Travessia e concluir os trabalhos iniciados em 2010. Hoje, entretanto, mais um round dessa inaceitável briga foi iniciado. Fomos informados que professores que têm dois vínculos em regência não podem continuar no Projeto Travessia.

Lembrei-me do Massacre de Lviv. Em 1941 os alemães foram menos cruéis. O extermínio rápido e sumário, ao menos, poupou os professores do sofrimento diário a que estamos sendo submetidos. Particularmente me sinto triste e desmotivado. Dias depois do Secretario de Educação garantir, diante de professores e representantes sindicais, que nós teríamos os direitos respeitados, recebemos a notícia de que teremos que interromper um trabalho pela metade. Imagine com que ânimo um professor que passa por essa pressão estúpida entra em sala para trabalhar. Imagine um médico tendo que operar sendo perseguido assim. Imagine um juiz tendo que julgar sendo perseguido assim. Imagine um governador tendo que governar sendo perseguido assim. Imagine, se possível, um professor tendo que lecionar sendo perseguido assim e com o agravante de ganhar muito menos que os profissionais citados anteriormente.

Termino esse breve desabafo com uma célebre frase de Bertolt Brecht que traduz, com perfeição, a indignação que estamos sentindo e serve de incentivo para a luta que virá pela frente: “Não diga 'tudo bem' diante do inaceitável, para que este não passe por imutável”.

CAÇA AS BRUXAS (Season Of The Witch) - NADA DE NOVO

Vira e mexe o cinema rebusca a história dos Cavaleiros Templários. Como é um tema clássico e bastante explorado, os roteiristas buscam caminhos para fugir da mesmice. Em “Caça As Bruxas” (Season of the Witch, 2010) Nicolas Cage interpreta Behmen, um cavaleiro templário em crise que rompe com a Igreja e torna-se desertor. Para fugir da condenação, Behmen e seu fiel amigo Felson (Ron Perlman) aceitam conduzir um garota, acusada de bruxaria pela Igreja, à um monastério onde um ritual de exorcismo aniquilaria a bruxa e salvaria a Europa da Peste.

O filme tenta ser original misturando exorcismo com bruxas, mas não apresenta nenhuma novidade no roteiro e acaba apelando para o entretenimento barato mostrando clichês clássicos: soldado desertor que recebe uma missão quase impossível para se redimir; ponte de corda ligando dois penhascos que se rompe durante a passagem e um demônio alado, entre outras coisas.

Para quem procura um filme para um mero entretenimento, “Caça As Bruxas” se encaixa perfeitamente.


Ficha Técnica

País: EUA

Título original: Season Of The Witch

Duração: 99 minutos

Gênero: Aventura

Direção: Domenic Sena

Estreia: 07 de janeiro de 2011 (EUA) – 21 de janeiro 2011 (Brasil)

RELICÁRIO VOL. 05 - OS PRIMÓRDIOS DAS SÉRIES JAPONESAS

Nacional Kid (Nashônaru Kiddo - 1960)

O encontro entre a cultura pop nipônica e o mundo ocidental tem um marco: Nacional Kid (Nashônaru Kiddo). A série foi lançada no Japão no dia 04 de agosto de 1960 e virou febre no mundo inteiro. O interessante na história desse super-herói oriental é que ele surgiu como um produto de propaganda para uma indústria de eletrodomésticos, “National Eletronics Inc” (Depois, National). Mais comercial, impossível. O fato é que o merchant deu certo e ganhou o mundo. A série chegou ao Brasil em 1964 sendo exibida, primeiramente, pela TV Record com dublagem da AIC/ São Paulo.

A partir de então, o universo japonês alternou inúmeros heróis lendários:

Ultraman (Urutoraman – 1966)

Um clássico das séries japonesas, fez tanto sucesso que gerou franquias em diversos países do mundo. A série, que foi produzida em cores, chegou ao Brasil no final da década de 60 sendo exibida pela extinta TV Tupi. Depois foi atração, de muito sucesso, nas Tvs Bandeirantes, Record e Manchete. Ultraman é uma das séries japonesas mais cultuadas de todos os tempos perdendo apenas para Nacional Kid. Na década de 80 o SBT exibiu um remake da série intitulada “Ultraman Hideki Goh” ou “O Regresso de Ultraman”. Entretanto, a emissora não deixava claro que se tratava de uma reedição e muitos faziam confusão achando se tratar do seriado original.

Ésper (Kousoku Esper - 1967)

A série narrava as aventuras do garoto Hikaru, que perdeu os pais num acidente em que o balão que ele e seus pais viajavam se chocou com uma nave alienígena. Os pais de Hikaru morreram e os et's assumiram as identidades dos mesmos. A série foi exibida com grande sucesso na década de setenta pela TV Tupi.

Vingadores do Espaço (Maguma Taishi – 1966)

Apesar de ser do final da década de 60, foi lançada no Brasil apenas em 1973, na TV Tupi, no programa do Capitão Aza. A série foi exibida, ainda, na TV Record (final da década de 70) e na extinta TV Manchete (década de 80). A produção teve 52 episódios que mostraram a saga dos Vingadores terráqueos que lutavam contra o terrível Rodak (também conhecido como Goa), um invasor alienígena que queria conquistar a Terra.

Robô Gigante (Jainto Robô – Jaianto Robo – 1967)

No Japão, a série criada por Mitsutero Yokayama, teve um relativo sucesso. Já no Brasil virou mania entre os garotos quando era exibida na extinta TV Tupi. A série narrava as aventuras do garoto Daisako (Mitsunobu Kaneko) que depois de sobreviver a um naufrágio, descobriu um robô gigante em uma ilha misteriosa no esconderijo secreto da Big Fire, organização alienígena liderada pelo Imperador Guilhotina. Acidentalmente, Daisako gravou a sua voz nos registros de comando do robô e passou a controlá-lo. Depois de escapar da ilha, o garoto foi recrutado pela Unicorn e, sob o codinome “U7”, passa a combater a Big Fire. As Actions Figure da série lançadas na década de 80 são disputadas por colecionadores do mundo inteiro. Curiosidade: o jovem astro mirim, Mitsunobu Kaneko, que interpretava o herói Daisako, morreu jovem, com apenas 41 anos, em 1997. A série Robô Gigante foi seu único trabalho de destaque.

Ultraseven (Uruturasebun – 1968)

Esse grade clássico das séries japonesas foi o maior êxito da Tsuburaya Productions. O grande diferencial dessa produção foi a temática mais adulta com roteiros mais complexos. Por esse motivo, Ultraseven conquistou um público de uma faixa etária superior a dos seus antecessores. No Brasil, entretanto, a série, que foi exibida pelas tv's Tupi, Bandeirantes e Record, foi um grande sucesso infantil. Hoje em dia é tão cultuada quanto Ultraman e Nacional Kid.

Spectreman (Supekutoruman – 1971)

O seriado nasceu no rastro do sucesso do seu antecessor, Ultrama. Ao contrário dos demais seriados japoneses, o herói Spectreman não era humano e sim um androide que lutava contra um simióide, o poderoso Gori. A produção durou apenas um ano mas foram exibidos 63 episódios com relativo sucesso. A série marcou época porque foi uma das primeiras a abordar temas relativos a excessiva densidade demográfica japonesa. O discurso de abertura da série falava claramente sobre o assunto: "Planeta: Terra. Cidade: Tóquio. Como em todas as metrópoles deste planeta, Tóquio se acha hoje em desvantagem em sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas venham a se tornar letais para toda e qualquer forma de vida. Quem poderá intervir? Spectreman!"

No Brasil a série foi exibida na TV Record, no final da década de 70, e no SBT, na década de 80.

Jaspion (Koyoju Tokuso Jasupion – 1985)

Jaspion reinaugurou a nipomania no Brasil, arrefecida no final da década de 70. A série alcançou um estrondoso sucesso no Japão e virou febre no por aqui. Foi reprisada até a década de 90 e hoje está entre as produções japonesas mais cultuadas no Brasil. A tradução literal do nome da séries, “O Caçador de Monstros Jaspion”, dá uma ideia da premissa dos roteiros. A série narrava a saga de um garoto, Jaspion, que foi adotado por um profeta de nome Edim que resgatou o menino depois dele ter sobrevivido a um acidente com uma nave espacial no planeta. A produção seguia a linha maniqueista bem explicitada no eixo central da trama: o Profeta Edin era seguidor da Bíblia Galáctica e preparou Jaspion para combater Satan Goss, o líder do Império dos Monstros.

"O SANTA É DO POVO, COMO O CÉU É DO CONDOR"

A lembrança mais antiga de que tenho do amor que eu sinto pelo Santa Cruz é do longínquo ano de 1970, quando eu contava apenas cinco anos. Morava no bairro da Mangueira (zona leste do Recife) e visitava minha tia, Lena, que ostentava, imponente, um enorme quadro na sala da sua casa. Era um objeto de adoração de toda família Oliveira (todos, absolutamente todos, torcedores do Santa Cruz), um quadro que exibia a belíssima imagem de uma cobra enforcando um leão (ou uma leoa, não sei distinguir esses bichos).

Tem mais: o quadro tinha uma luminária por trás e eu pedia: “tia, liga o quadro”. Ela, obviamente, satisfazia o desejo do jovem tricolor. Era uma época de ouro, time imbatível, orgulho de Pernambuco. A inferência mais lógica para os leigos em “santa cruz mania” é que ser torcedor do clube naquela época era mais prazeroso do que hoje, tempos de entressafra de títulos e boas notícias. Mas, contrariando a lógica cartesiana futebolística, a torcida do Mais Querido vem quebrando recordes e deixando de queixo caído os que contemplam as insofismáveis provas de amor.

Não tente entender mais de quarenta mil pessoas na quarta divisão, o limbo do limbo do resto do futebol. Não tente entender o fato de que, em 2010, ano em que as decepções se repetiram, o Santa foi o campeão brasileiro de público, teve uma média anual superior a do Flamengo e a do Corinthians, os queridinhos da mídia. Não se atreva a tentar entender!

O Arruda lotado sugere uma paráfrase em forma de homenagem ao grande Castro Alves: “O Santa é do povo como o céu é do Condor”. Parabéns e sorte ao meu clube do coração!

Abaixo, um vídeo que fiz em uma das inúmeras vezes que estive no Arruda lotado. Um mergulho na torcida mais apaixonada do mundo. Regozije-se: