FRINGE 4x09 – ENEMY OF THE ENEMY


Spoilers Abaixo!

O nono episódio trouxe algumas novidades, mas não empolgou. As ramificações apresentadas no roteiro se encontraram nesses últimos episódios e está faltando habilidade para lidar com elas. Um ponto positivo, entretanto, é a forma correta como estão alternando a narrativa entre os dois universos. Só para comparar: em “Heroes” e “Lost”, os erros cometidos nas narrativas em tempos e dimensões paralelas, dificultaram muito o bom andamento da trama. No caso de Heroes, aniquilou completamente a série que tinha uma ótima premissa.

Enemy of My Enemy” mostrou que o lado negro da trama tem membros importantes, mas, como os metamorfos voltaram à cena, tudo pode não passar de um engodo dos roteiristas. O Broyles alternativo parece ser um metamorfo. O sinistro David Robert Jones, revelou o episódio, parece estar a serviço de Nina Sharp. A Elizabeth alternativa, antes uma neurótica que sofria pela perda do filho, misteriosamente, atravessou o portal e veio consolar e aconselhar Walter. E o Peter? O rapaz tomou para si a responsabilidade de enfrentar Jones fazendo pose de herói e tudo o mais.

As informações foram despeajdas e a trama embolou um pouco. Espero respostas, muitas respostas nos próximos episódios. Para terminar, uma inferência sobre o título do episódio, “Inimigo do Meu Inimigo”: o Walternativo pode estar dando uma de bonzinho porque Jones é inimigo comum entre ele e a outra dimensão. Algo como: “vamos trabalhar juntos para eliminar o nosso inimigo”.

Ficha
Escrito por: Monica Breen e Alison Schapker
Direção: Joe Chappelle
Exibição(EUA): 20 de Janeiro de 2012

MAURITZSTADT, MAURICÉIA, OU APENAS SÍNDROME DE ESTOCOLMO?


A história de Pernambuco, sobretudo da cidade do Recife, está intimamente ligada à vida do navegador germânico Johann Moritz von Nassau-Siegen, o Maurício de Nassau. De linhagem nobre, foi conde ainda na época do Sacro Império Romano Germânico e, após a formação da Confederação Germânica (1674), príncipe de Nassau-Siegen. Tinha forte formação militar mas, diferentemente dos combatentes da sua época, conservou a formação religiosa e o apreço pela arte, sobretudo a arquitetura. Sua inclinação calvinista e a necessidade de prover recursos para bancar seus sonhos arquitetônicos o levaram a aceitar o convite da Companhia das Índias Ocidentais para administrar os territórios holandeses conquistados no Brasil.

Foi num 23 de janeiro como hoje, que Maurício de Nassau desembarcou no porto do Recife. Sua comitiva refletia sua formação humanistica, muito mais que a militar. Era composta por arquitetos, cientistas, gravuristas, médicos e religiosos. Diferentemente dos portugueses, que impuseram o credo católico, Nassau propagou a liberdade religiosa estabelecendo uma relação amistosa com os nativos e estrangeiros que aqui viviam. O Recife passou por um rápido período de modernização e se tornou uma das cidades mais importantes das Américas. Nassau tornou-se um mito no imaginário dos pernambucanos. Recife conserva até os dias de hoje traços da cultura holandesa e mantém uma relação histórica tão íntima com os Países Baixos que muitos estudiosos, numa analogia com a psicologia, afirmam ser uma manifestação do que eles chamam de “Síndrome de Estocolmo”, o sentimento de apreço que o dominado sente pelo dominador.

O Instituto Ricardo Brenand, espetacular museu iconográfico do Recife, reúne uma coleção original de obras dos pintores Franz Post e  Alber Eckhout, ambos da comitiva de Nassau. A cidade do Recife em ensaios poéticos e em várias publicações históricas locais é chamada de “Mauricéia” ou “Mauritzstadt”, uma referência a influencia de Maurício de Nassau. Fora isso, tem as coincidências naturais: a cidade do Recife é cercada por canais, tem uma geografia idêntica a da cidade de Amsterdã, que vive em constante luta para fugir do avanço das águas.

Há alguns anos, a empresa de saneamento do Recife fazia escavações no Recife Antigo e descobriu uma sequência de diques construídos na época dos holandeses. A obra tinha o mesmo propósito dos famosos pôlderes holandeses: conter o avanço do mar. O local acabou virando um museu a céu aberto alimentando mais ainda a mística dos holandeses. São 375 anos de uma história que a maioria dos recifenses adora relembrar e alguns adoram rechaçar. Seja como for, é uma bela história.

MORRE JIMMY CASTOR, PIONEIRO DO FUNK


Não é só no Brasil que os grandes artistas morrem no esquecimento. No último dia 16, aos 71 anos, morreu Jimmy Castor, uma lenda do funk de raiz. James Wolton Castor, era saxofonista e integrou o grupo Jimmy Castor Bunch” emplacando vários hits como "Troglodyte (Cave Man)" e “The Everything Man”. O legado de Jimmy serviu de influencia para a disseminação do funk e da soul music pelo mundo, inclusive no Brasil. Artistas como Tony Tornado, Chico Science e Tim Maia foram fortemente influenciados por ele.
 
Segundo as agências de notícias, Jimmy Castor, apesar da fama, morreu pobre e esquecido. Enfrentava dificuldades financeiras e não conseguia mais espaço na mídia americana. Abaixo, o espetacular vídeo da música “It's Just Begun”, uma verdadeira aula de soul. Regozijem-se:

ELIS DEVERIA TER SIDO MINHA FILHA


No exato momento em que escrevo esse post, estou contemplando Elis no “Arquivo N” da Globo News. Uma série de vídeos e depoimentos da grande estrela da emepebê. Conheci – musicalmente falando, claro – Elis na adolescência. No final da década 70, na rua em que eu morava, tinha um grupo de jovens (um pouco mais velhos que eu) que curtia o que eles chamavam na época de “música altamente” ou “música cabeça”. Elis Regina era figura carimbada. Aquelas imagens em preto e branco dela cantando "Ponteio", ou a lendária interpretação de “Águas de Março” junto com Tom, os dois brincando com um standard da emepebê. Inesquecível!

E o que ela tinha de diferente? Depois de sua morte, em 19 de janeiro de 1982, o mito cresceu bastante, é certo. Entretanto, no auge da sua carreira, muitos já apontavam Elis como a grande interprete de todos os tempos da emepebê. Ela era teatral, não era só uma interpretação vocal. Somatizava as histórias cantadas alterando, num mesmo espetáculo, felicidade e tristeza num estalar de dedos. Eu gostava tanto dela que sonhava em ser pai de uma menina que se chamaria “Elis”. Quando minha primeira filha nasceu, acabei não realizando esse sonho porque minha ex-esposa não gostava do nome. Resolvi a questão batizando minha filha com o nome de Thais, que rima com Elis.

Hoje, exatamente, está fazendo trinta anos que ela se foi. Para relembrá-la -  e ao mesmo tempo exorcizar esse momento atual da “música” brasileira -  escolhi uma canção bastante significativa da carreira dela: “Para Lennon e McCartney”, de Milton Nascimento. Essa canção é meio que um hino da minha adolescência. Regozijem-se:

COLAGEM VOL. 03 - SURTANDO NO ÔNIBUS


FRINGE 4x08 – BACK TO WHERE YOU'VE NEVER BEEN

O retorno de Fringe não me empolgou muito, esperava um pouco mais do episódio. O interessante é que, finalmente, foi apresentado um porquê relevante para a introdução desse “Peter” rejeitado na dimensão real. O episódio serviu para construir a historinha que colocou frente à frente ele e o Walternativo.

Peter pediu ajuda a Olivia para cruzar o portal e tentar encontrar o caminho de volta para a sua dimensão. A descoberta desse caminho, segundo ele, só seria possível com a ajuda do Walternativo. Olivia fingiu concordar e bolou um plano para colher informações sobre a máquina que provocou o cruzamento entre as duas dimensões. O Lincoln da dimensão real cruzou o portal junto com Peter.

O universo alternativo serviu como cenário para quase todo o episódio. Logo que chegaram do outro lado, Peter e Lincoln foram capturados. Um dos agentes, era um transmorfo infiltrado e tentou matar os dois. Peter reagiu e acabou se aproveitando da situação. Percebeu a farsa de Lincoln e o usou para escapar do FBI.

A saga de Peter tentando encontrar o caminho de volta para o seu mundo lembrou, em muito, a premissa do clássico desenho “Caverna do Dragão”. Nesse contexto o Walternativo é uma espécie de “Mestre dos Magos”. Depois de conversar com Elizabeth, o correspondente alternativo da sua mãe, Peter acabou ficando cara a cara com o Walternativo. Num breve teatrinho, o velho eliminou um cientista, na verdade um transmorfo, e fez parecer que ele era infiltrado e o Walternativo estava contra ele. Pouco convincente, mas Peter acreditou. Os dois selaram um acordo: Peter o ajudaria com informações do universo real em troca da volta para o seu mundo.

O final do episódio mostrou ainda duas revelações:

*O Broyles alternativo está mancomunadoo com os transmorfos, acabou dedurando Olivia e Lincoln com um telefonema.

*O Observador apareceu, com um buraco de bala no peito, só para revelar à Olivia que ela deveria morrer seja em qual fosse o mundo. Sinistro! No geral, achei que o episódio ficou devendo.

Ficha
Escrito por: David Fury & Graham Roland
Direção: Jeannot Szwarc
Exibição (EUA): 13 de Janeiro de 2012

NADA MUDOU

Ontem passei em frente a Estação Central do Recife e pude verificar que tudo continua na mesma, tapumes cercando a obra interminável do “centro cultural” que nunca chega. Aliás, percebi uma mudança: decoraram os tapumes com motivos de xilogravura um recurso visual mais agradável do que a fria cerca de madeirite que protegia a obra. Seja como for, o histórico prédio continua fechado e ninguém se pronuncia sobre o assunto.

Saiba mais sobre o assunto aqui e aqui.

O PERNAMBUCO ILUMINISTA DE FREI CANECA

O iluminismo serviu de alicerce para todo e qualquer movimento voltado  à promoção da igualdade social e à liberdade. “O indivíduo só é verdadeiramente livre quando se liberta das trevas da ignorância”, pregavam os iluministas franceses. Essas ideias ganharam o mundo e chegaram até o Brasil. Aportaram na província de Pernambuco que tornou-se, desde então,  palco de várias revoltas libertárias.

Primeiro foi a Revolução Pernambucana ocorrida em 1817. Os maçons disseminaram as ideias iluministas na província e o absolutismo da coroa portuguesa começou a ser contestado. O movimento foi rechaçado duramente. A Província de Pernambuco foi esfacelada e perdeu a tutela do Rio Grande, Paraíba e Ceará que passaram a ser autônomas. As perdas materiais foram enormes, mas os revoltosos  ajudaram a propagar o sentimento nativista.

E 1824 um outro movimento revolucionário, também com raízes iluministas, ganhou força em Pernambuco. A Confederação do Equador, como ficou conhecido,  tinha um caráter emancipacionista e defendia a implantação da República. Assim como no movimento de 1817, o absolutismo português era o principal motivo da revolta. Liderados por Frei Caneca e Manuel de Carvalho Paes de Andrade, o bloco republicano de Pernambuco era contrário a forte centralização proposta pela Constituição de 1824. Os ares da República brasileira ganharam força, ironicamente, nesse movimento separatista.

Não vou me alongar aqui reproduzindo o que os livros – e os sites de busca – podem fornecer a qualquer um. O motivo desse post é, única e tão somente, destacar a figura de um grande pernambucano: Frei Caneca. Ele era mais que um religioso esse, aliás, é o detalhe menos citado da sua conturbada vida. Foi jornalista atuante do “Typhis Pernambucano” semanário fundado por ele próprio que circulou entre 1823 e 1824 tendo 29 exemplares publicados e preservados até hoje. Frei Caneca usava o jornal par divulgar suas ideias libertárias. Participou ativamente da Revolução Pernambucana e da Confederação do Equador.  Pagou com a vida por defender a liberdade do povo pernambucano.

Num 13 de janeiro como hoje, Frei Caneca foi fuzilado numa muralha do Forte das Cinco Pontas. Tornava-se, então, definitivamente livre. Meus respeitos!

LIMINHA, O PRODUTOR MUTANTE

Parte da minha formação musical vem da contestada década de 80. Testemunhei o ressurgimento (para muitos, o nascimento) do rock brasileiro naquela efervescência de bandas e festivais. Consumíamos não só a música, mas as informações contidas nos discos. Álbuns com encartes eram sinônimo de produção elaborada. Até o início da década de 80, esse libreto de informações era um luxo conferido apenas aos grandes astros. O “Secos & Molhados” foi a primeiro grupo a lançar um disco com encarte contendo letras e informações técnicas, me dizia sempre o amigo fiel Hezinho Jr.

Pois bem, o que me intrigava, já na década de 80, era o fato de quase todos os discos que nós ouvíamos, traziam o nome de Liminha como produtor e também como músico. Não existia internet e só descobrimos detalhes da vida desse agitador cultural nas matérias publicadas na Bizz, que líamos mensalmente. Liminha era uma espécie de “marca registrada”. Sua contribuição no pop rock brasileiro começou nos “Mutantes”, banda da qual fez parte entre 1969 e 1974, tocando baixo e cantando.

Sua estreia na área de produção, em 1977,  foi como diretor de estúdio  num disco clássico da black music brasileira: “Maria Fumaça”, da Banda Black Rio. A partir de então transitou como produtor e músico em discos importantíssimos da emepebê e do pop rock. Produziu o disco de estreia das Frenéticas (1977), produziu também discos de Elis Regina, João Gilberto, Raul Seixas, todos os discos de Gilberto Gil , os três melhores discos de Lulu Santos -Tempos Modernos (1982), Ritmo Moderno (1983) e Tudo Azul (1984) – e ajudou a reescrever a história do rock brasileiro produzindo (e em muitos deles, tocando)  os principais discos dos Titãs, Paralamas do Sucesso, Ira, Ultraje a Rigor, O Rapa, Barão Vermelho, Gabriel o Pensador e Erasmo Carlos.

A música pernambucana não ficou de fora da veia criativa do músico e produtor Liminha. Foi ele o responsável pela produção do primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi. Segundo o próprio Chico, Liminha ficou fascinado com a musica dele e mostrava a gravação a vários artistas importantes dizendo que a música que Chico fazia era moderna, não usava bateria. Liminha tinha anos de estrada, mas, confessaria mais tarde, aprendeu com a música de Chico. Chico também aprendeu com Liminha e o resultado dessa simbiose seria verificado no disco “Afrociberdelia”.

Está em fase de produção, um documentário sobre a trajetória vitoriosa de Liminha como músico e, principalmente, como produtor. Histórias para contar ele tem muitas, certamente os nomes importantes com quem ele trabalhou ao longo da sua carreira contribuirão bastante para enriquecer esse registro de vida. Parabéns, Arnolpho Lima Filho, parabéns, Liminha!

AV CONDE DA BOA VISTA OBSERVADA DO ALTO DA PASSARELA DO SHOPPING BOA VISTA

CENSURA À MODA BRASILEIRA

Ontem vi pela tevê que a escola de samba carioca, Beija-Flor, vai homenagear seu ex- carnavalesco, “Joãozinho Trinta”, falecido em Dezembro  passado. A escola vai reeditar o “Cristo Mendigo”, censurado em 1989. Desta feita, a estátua desfilará sem o pano negro. O segredo que a retirada do pano negro revelará é guardado a sete chaves. O interessante nessa história é que a censura a Joaozinho aconteceu numa época em que a redemocratização era muito celebrada. O veto à alegoria da Beija-flor foi uma intervenção religiosa, não teve caráter político. O Cristo de Joãozinho contrariou algum ponto do Índex da Igreja.

O Brasil teve outros exemplos de espasmos de censura em tempos de redemocratização. Em 1985, o filme “Je Vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, uma das atrações do Fest Rio daquele ano, teve sua exibição vetada por pressão da CNBB. Mais uma vez a força da Igreja Católica, apoiada pela hipocrisia do poder público da época, cerceou uma obra artística. O filme foi exibido para pequenos grupos que peitaram a decisão da justiça mas, na prática, ficou de fora da mostra retrospectiva, em homenagem a Godard, planejada para o Fest Rio de 1985.
Vinte e cinco anos depois, mais um evento de censura aconteceu no Rio de Janeiro. Dessa vez pela força de um partido político. Numa ação movida pelo DEM, o filme sérvio “A Serbian Film – Terror Sem Limites”, teve sua exibição vetada. A juíza Katerine Jatahy Nygaard, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, acatou a ação que alegava que o filme fazia apologia a crimes contra a criança e a pedofilia. O fato é que a obra foi censurada. O inalienável direito de escolher, coisa elementar em qualquer sociedade que se diz organizada, foi cerceado.

O mais absurdo é que essas intervenções do poder instituído não aconteceram em momentos em que o Brasil vivia sob a tutela de um regime ditatorial. Essa é uma censura que segue entranhada no modelo de democracia que o Brasil vem (des)construindo desde 1985, quando os militares saíram de cena. E por falar em ditadura, na última terça feira (3), desembarcou em Pernambuco o padre Victor Miracapillo, que teve seu visto renovado depois de trinta e dois anos do seu desterro. Em 1980, quando era pároco de Ribeirão, cidade da mata sul de Pernambuco, o padre Miracapillo recusou-se a celebrar uma missa em homenagem ao dia da independência do Brasil. Um movimento encabeçado pelo ex-deputado federal (atual prefeito do município de João Alfredo) Severino Cavalcanti, resultou na expulsão do padre Victor do Brasil.

Ontem a noite, de volta à cidade de Ribeirão, o padre Victor celebrou uma missa em homenagem a decisão do Ministério da Justiça que revalidou o seu visto. A censura teima em permanecer viva na sociedade brasileira, mas  a revogação de atos extremos como a expulsão do padre Victor, serve de alento para  acreditarmos que algum dia, talvez, o direito de escolha seja exercido sem a intervenção do Estado.

EU, RECIFENSE

Por esses dias tenho me dado a um desfrute que classifico como um dos mais prazerosos: caminhar pelo centro do Recife. Normalmente, meu ponto de partida é a Conde da Boa Vista, ali na altura do Mustang. Para quem não é da cidade, esse trecho é uma área de comércio efervescente, durante o dia, e de boemia, à noite.

Os céus da Boa Vista ganharam um novo adorno: uma passarela que liga um pequeno shopping ao seu mais novo anexo. No começo estranhei, mas na primeira vez que cruzei o elevado fiquei maravilhado com o visual lá de cima. Na minha opinião, a passarela foi pensada para um fim e servirá para outro. É um belo mirante para se contemplar essa grande artéria que cruza o coração do Recife.

De volta ao chão, dirigi-me a rua da Conceição, uma paralela da Conde da Boa Vista, conhecida por  reunir um número incontável de antiquários e leilões. É um lugar poético. Passei apenas alguns minutos, tempo bastante para comprar uma estante, minhas quinquilharias – devedês, cedês, livros, coleções de revistas e etc – crescem numa velocidade assustadora. Consumada a compra, segui em direção à praça Maciel Pinheiro. Passei em frente ao casarão onde morou Clarice Lispector, hoje reformado. Isso é o que encanta na cidade, cada trecho tem uma história particular.

O único ponto negativo nesses passeios, é observar locais que no passado representavam muito e hoje em dia não existem mais. Triste passar na José de Alencar e não ver mais a “Alegro Cantante”, lendária loja de discos e ponto de intelectuais. Fazem falta também: a Disco Sete, a Livro Sete, o Mausoleum, a Banca do Elvis, os cinemas do centro, sobretudo, o Art Palácio.  O Cine São Luiz ainda está na ativa, mas não o estão tratando com o devido respeito.

Sou assim, uso e abuso do melhor – as vezes, do pior – da minha cidade. Abaixo, os poetas falando do meu Recife:

 Restos de Carnaval - Clarice Lispector

“Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”.

Frevo Nº 03 do Recife – Antônio Maria

“Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar
O rio passa levando barcaça pro alto do mar
Em mim não passa essa vontade de voltar
Recife mandou me chamar”.

Evocação do Recife – Manuel Bandeira

“Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritzstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias”
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância”

Recife Cidade Lendária – Capiba

“Recife, cidade lendária
De pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados, compridos, escuros
Faz gosto se ver
Recife teus lindos jardins
Recebem a brisa que vem do alto mar
Recife teu céu tão bonito
Tem noites de lua pra gente cantar”

Tarde No Recife – Joaquim Cardoso

“Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio”.

A INTERNET CONFIRMOU A IDEIA DOS MUNDOS PARALELOS

Outro dia, zapeando pela tevê – cultivo hábitos antigos – aportei num canal em que um psicólogo falava uma coisa interessante e verdadeira. Dizia  ele: “Quando duas pessoas estão em processo de flerte, quando estão se enamorando, na verdade, entre elas, existem várias pessoas. As duas pessoas reais, as pessoas que elas estão fingindo ser e as pessoas que elas gostariam de ser”. Na prática, mesmo referindo-se ao aspecto comportamental, ele acabou levantando uma questão interessante: a existência de mundos paralelos.

Se entre duas pessoas circulam personalidades fakes que interagem com o mundo real, imagine no universo incomensurável da internet, quantos mundos existirá?  Limite-se ao seu circulo VIRTUAL de amizades. Quantas vezes você cruzou no trabalho (ou na rua, na escola, na faculdade) com uma pessoa com quem conversa cotidianamente no âmbito virtual e na vida real ela lhe parece estranha? Alguns amigos, no universo virtual, são íntimos, têm liberdade de brincar, fazer comentários sobre a vida pessoal. Ao vivo, esse “amigo” não passa de um estranho que te cumprimenta com um sorriso amarelo. Na prática, você convive com mundos paralelos.

Os diversos personagens que os internautas criam diante da tela do pecê povoam os diversos universos paralelos. Alguns, inclusive, acabam assumindo a identidade do seu criador. A internet tem essa magia e essa assustadora liberdade. Uma rede social criou, inclusive, um cemitério virtual. Quando um de seus associados morre, a família informa e o avatar do infeliz é remetido para um ambiente fúnebre. Vários sites se especializaram nesse tipo de serviço na rede. Até missa online é celebrada. Essa “realidade” fomenta outra discussão que já envereda pelo campo da metafísica: se a concepção de morte foi introduzida no mundo virtual, podemos afirmar que dentro do universo virtual existe um universo paralelo, o dos mortos. Haja neurônio!

A internet também confirmou a existência da eternidade. No “Facebook”, rede social mais popular do planeta – agora, também, a mais popular do Brasil, ultrapassou o Orkut – o perfil é eterno. Depois que você cria, não pode mais excluir definitivamente. Zuckerberg, o criador da rede, deu uma cartada de mestre. Se você decide encerrar suas atividades no Face, seu perfil fica inerte até o dia em que você se arrepender e fizer o login de novo. E essa ressurreição não acontece no terceiro dia, é instantânea. Um milagre concebido por um jovem nerd numa república universitária numa noite de solidão.

O cruzamento dos mundos


Passei a virada de ano na Praia de Boa Viagem, aqui no Recife. Pouco antes da queima de fogos, observei o papo de dois garotos que estavam do meu lado. Um deles falava que seu irmão havia ficado em casa porque combinou com amigos (virtuais), do Brasil inteiro, para “curtirem” a virada na internet. Ou seja, eles estavam no universo virtual comemorando uma festa do mundo real. Os dois mundos, portanto, se cruzaram. Essa interseção acontece diariamente. Ao invés de protestarem nas ruas, as pessoas fazem “twittaços”. Aquela “realidade fantástica” que nos divertia nos seriados de Irving Allen, agora, faz parte do mundo real. Comemore ou lamente!

COLAGEM VOL. 02: TITANIC TECNOLÓGICO

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O MENINO E OS LIVROS (HISTÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA)

Pois então, curtindo o começo das minhas merecidas férias, achando o dia longo demais, fui rebuscar velharias num arquivo morto. Procurava por uma letra de música que escrevi há anos e acabei encontrando um relíquia – um julgamento particular, claro – da minha adolescência. No longínquo ano de 1979, quando eu cursava a 6ª série do ensino fundamental, revoltei-me contra meus colegas de classe porque eles não se interessaram em comprar livros.

Na época, diferentemente de hoje, livros paradidáticos nas escolas públicas eram artigos raríssimos, quase inexistentes. Vez ou outra aparecia um representante de editora oferecendo promoções coletivas. Numa dessas visitas, o representante de uma editora deixou um catálogo e alguns brindes para os alunos. A recomendação era de que só aceitariam pedidos a partir de dez livros. Escolhi um, convenci meu pai e  dei meu nome a professora. Dias depois, a triste notícia: o pedido não poderia ser feito porque apenas eu me interessei pelos livros.

Diante dessa decepção, resolvi recorrer diretamente à editora. Fiz o meu pedido individualmente, contrariando a orientação do representante. Solicitei a compra de "A Ilha Perdida (Maria José Dupré)", o primeiro livro que li na vida. Também fui à diretoria e fiz uma queixa contra a professora de português. Argumentei que ela não se esforçou em convencer  os alunos a adquirirem os livros. Fui repreendido por isso. Ganhei a antipatia dos colegas e da professora. Quanto a editora, bom, segue, abaixo, a resposta que me deram na época. Durante muito tempo entendi como um ato de respeito. Entretanto, analisando o fato hoje em dia, percebo que faltou sensibilidade ao gerente comercial da empresa. Rejeitar o pedido de um garoto de treze anos foi, no mínimo, grosseiro. O livro poderia até ter sido enviado como brinde, o que serviria como propaganda para os outros garotos também adquirirem.

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