OS ESPECIALISTAS

No passado valorizava-se mais o conhecimento holístico, que leva em consideração o todo. Essa concepção, hoje em dia, é considerada obsoleta pela maioria das pessoas. O grande lance da atualidade é a especialização. Quem nada contra essa corrente, em termos mercadológicos, é discriminado e perde espaço. Compare: o clínico geral é menos importante do que o cardiologista, que por sua vez é menos importante do que o cirurgião cardiovascular e por aí vai.

Sempre que levanto essa questão lembro-me do professor Vieira, que dizia nas aulas: “não sou professor de Matemática, sou professor de Geometria”. Na minha disciplina, Geografia, existe também essa dicotomia. Alguns professores lecionam a parte física, outros a parte socioeconômica. Mas não odeio os especialistas por isso, claro. O que me tira do sério é quando uma pessoa que se especializou em determinado assunto tenta exigir de você o mesmo nível de compreensão. Algo como você dizer que está com uma dor na rótula e o médico, com um ar estúpido de superioridade, dar aquele sorrisinho sarcástico e falar: “não se diz mais rótula, o nome agora é patela”.

Nesse imenso universo de especialistas pedantes, acabam se destacando os que combinam o seu objeto de estudo com o todo. O grande consultor financeiro, especializado em economia internacional, precisa entender um pouco de história e sociologia, não apenas de transações financeiras. Para inferir sobre acontecimentos atuais é preciso entender a história das instituições em que ele trabalha e seus reflexos na sociedade.

Termino esse breve post com uma experiência que vivi trabalhando com meu pai quando garoto: Com trinta anos de experiência no oficio de fabricar bolsas, meu pai tentava me ensinar a dar acabamento em algumas peças. Nas primeiras tentativas, inexperiente, claro, falhei. Disse ele: “rapaz, você é muito burro, eu estou te mostrando como é que se faz”. Argumentei que estava fazendo pela primeira vez e ele tinha trinta anos de experiência. De nada adiantou, a fama de burrou continuou. Foi quando tive uma ideia: já tocava violão há algum tempo, corri para o quarto, peguei o instrumento e disse pro meu pai: “preste atenção, vou tocar uma música e depois o senhor tem que fazer igual”. Só aí ele entendeu o quanto estava sendo cruel comigo.

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