SALVO DO EFEITO “SEXO E CARATÊ”

A partir da segunda metade da década de 80 (século XX), os cinemas do Recife (assim como no resto do Brasil) entraram em processo de extinção. Fui um frequentador contumaz das salas de exibição do centro. Cada cinema tinha seu charme especial, um detalhe particular que o outro não tinha. Essas pequenas diferenças produziram tribos urbanas que elegiam esse ou aquele cinema como preferido.

Os irmãos gêmeos Astor e Ritz, localizados na Visconde de Suassuna, tinham fama de elitizados. E eram mesmo. Lembro que nessas duas salas sempre tinha um clássico em cartaz. O Veneza, localizado na Rua do Hospício, era a sala hi-tec. Foi o primeiro cinema do Recife a utilizar sistema de som estéreo. Fui testemunha ocular, quero dizer auditiva, desse avanço. Na exibição do musical “Xanadu”, que mostrava a inusitada parceria entre Gene Kelly e Olivia Newton John, os efeitos sonoros causaram espanto na plateia. O Cine Veneza tinha uma curiosidade: estava localizado no térreo de um prédio que nunca foi utilizado, diziam, por problemas na execução da obra. Paradoxalmente, o cine hi-tec funcionava no prédio condenado.

O Cine Moderno, localizado na Praça Joaquim Nabuco, ao lado do tradicionalíssimo Restaurante Leite, tinha a mais bela sacada. O Moderno era um cinema com cara de cinema. No cruzamento da Rua da Palma com a Matias de Albuquerque, localizava-se um dos meus cinemas preferidos: o Art Palácio. Era o cinema dos jovens e o único do centro que não pertencia ao grupo Severiano Ribeiro. Por essa razão, ao invés do noticiário “Atualidades Atlântida”, assistíamos ao “Canal 100” nos intervalos. Por trás do Art Palácio, já na Av. Guararapes, localizava-se o cinema que eu menos curtia, o Trianon. Fui poucas vezes a essa sala. Lembro-me de ter assistido ali ao inesquecível “Califórnia Adeus”, com Giuliano Gema.

Na Av. Dantas Barreto, no 13º andar do Ed. AIP, localizava-se o minúsculo Cine AIP. Era o cinema com a melhor vista e o melhor serviço. Tinha um belo bar com vista para o Atlântico. A decoração da sala era muito bonita. Vários pôsteres em preto e branco de ícones do cinema mundial. O AIP era muitíssimo parecido com um multiplex. Ali eu assisti ao musical “Grease”, com John Travolta e Olivia Newton John. Na Praça do mercado de São José, localizava-se o Cine Glória, único cinema do centro que eu não frequentei. A praça do mercado ficava deserta nos finais de semana e, mesmo na década de 80, era perigoso circular por ali.

No bairro de Afogados, perto do centro, localizava-se o Cine Eldorado, um dos poucos cinemas de bairro pertencentes ao grupo Severiano Ribeiro. Foi o primeiro cinema que frequentei. Meu primeiro filme foi King Kong, com Jessica Lange. Por estar localizado próximo a minha casa, foi a sala que eu mais frequentei.

Finalmente, na Rua da Aurora, próximo da Ponte Duarte Coelho, diante do Capibaribe, LOCALIZA-SE o meu cinema preferido, o São Luiz. Sim, localiza-se, ele resistiu bravamente ao tempo e ao “efeito sexo e caratê”. O primeiro sinal que determinava o início do processo de decadência de um cinema, no final da década de 80, era quando ele começava a exibir filmes de sexo e caratê em sessões alternadas. Era como um selo de falência. O Cine São Luiz foi o último a ser fechado, mas a sua belíssima sala não foi desativada. O espaço permaneceu inativo desde 2005 e passou por várias promessas de reformas que não se concretizaram. Finalmente, esse ano, a FUNDARPE tombou a sala e decidiu criar ali um espaço cultural. No dia 28 passado, o cinema foi reaberto – apesar das quedas de energia – com a exibição do longa pernambucano “O Baile Perfumado”. O São Luiz teve uma trajetória inversa à da maioria dos cinemas que, depois de fechados, viraram templos religiosos. Ele nasceu no local onde antes funcionava uma igreja protestante. O processo de tombamento da Fundarpe descreveu assim o cinema:

O vestíbulo externo de acesso ao cinema conta com duas bilheterias e pé direito duplo, enfatizando, assim, sua monumentalidade, que é também ressaltada pela existência das vistosas galerias que envolvem grande parte do edifício. O acesso ao cinema acontece por meio de esquadrias de vidro, que dão acesso a um hall principal com rico tratamento arquitetônico, à base de materiais nobres tais como o mármore, vidros espelhados e bronze, enfatizando, assim, o luxo das funções ali instaladas.

Neste ambiente o piso e as paredes são revestidos de mármore branco; as esquadrias e portas são de madeira fosca; nas paredes laterais são fixadas grandes lâminas de espelhos em tom cobre e de frente um belíssimo painel de Lula Cardoso Ayres; as luminárias e barras de proteção da esquadria de acesso e do painel de Ayres são fabricadas originalmente em bronze; e os sanitários que, originalmente, eram revestidos em azulejo preto, (...)

O interior do cinema é decorado com pinturas e trabalhos em alto-relevo em tons dourados, vermelhos e esverdeados, inclusive no teto, e painéis laterais que remetem a trabalhos feitos a ouro. (...) A decoração conta ainda com brasões espelhados, dispostos de par em par”. Seguem algumas imagens do Cine São Luiz:

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Vista interna do São Luiz depois da reforma
Foto do Cine São Luiz no lançamento do filme "Alien, O Oitavo Passageiro", 1979
Hall de entrada do São Luiz
Sala de espera do segundo pavimento
Fachada do São Luiz em 2005

A HISTÓRIA SOB SUSPEITA

O grande problema da produção de textos históricos, para muitos, é o fato deles terem sido escritos sob a ótica do vencedor. A história é sempre vista a partir do ponto de vista de quem colonizou, em detrimento da versão do colonizado. Obviamente esse importante detalhe produziu distorções que, aos poucos, vêm sendo corrigidas.

Aqui no Brasil é possível destacar algumas dessas injustiças. Zumbi dos Palmares, o herói negro que teve uma importante atuação no combate à escravidão negra no Brasil, ainda é visto em muitos livros, pejorativamente, como um personagem folclórico. Uma saga riquíssima que é citada nos livros didáticos de forma superficial. Pense: quantos livros de história, que você leu, dedicaram ao menos um capítulo para narrar esse importante fato?

Os efeitos desse descaso com a verdadeira história têm reflexos diretos na sociedade e nos meios de comunicação. O Negro é sempre colocado em posição subalterna. Numa das poucas vezes em que um escravo protagonizou uma novela no Brasil – Escrava Isaura – deram um jeito de colocar uma personagem branca, contrariando todo e qualquer senso de realidade histórica do Brasil escravocrata.

Mas as distorções dos fatos também acontecem por questões políticas. A Inconfidência Mineira, fato histórico que produziu o maior mártir da história brasileira, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é bastante contestada. Durante a implantação da República no Brasil, existia uma disputa aberta entre os republicanos e os monarquistas saudosistas. A figura de Tiradentes como grande herói nacional foi trabalhada em diversas publicações da época e usada como propaganda política da República. A imagem do mártir se sobrepôs ao fato. A partir da década de 60 (século XX), sobretudo depois do golpe militar, todas as “glórias” atribuídas a Tiradentes ganharam adjetivos superlativos. Atualmente, na maioria dos textos históricos, a Inconfidência Mineira é abordada sem a paixão provinciana dos antigos textos produzidos no período anterior a década de 60.

Outro fato conhecido em que a história foi distorcida, para satisfazer o vencedor, foi a trágica Guerra do Paraguai. Um dos grandes genocídios da humanidade – seguramente o maior da América – ainda é tratado como motivo de orgulho em muitos livros de história. A versão brasileira da história produziu mais um “herói”: Duque de Caxias. De fato, o que aconteceu no Paraguai, entre dezembro de 1864 e março de 1870, foi uma grande carnificina. As três maiores nações sul-americanas da época, Brasil, Argentina e Uruguai, uniram-se e dizimaram setenta por cento da população paraguaia. O motivo: a insatisfação da Inglaterra. O Paraguai estava construindo uma economia sólida, tornando-se independente da tutela inglesa. A Inglaterra usou sua influência para provocar a guerra e destruir o país. Depois do genocídio, o Paraguai passou por várias epidemias de fome e tornou-se uma das economias mais atrasadas da América do Sul.

Muitos livros de história do Brasil narram esse fato de forma distorcida, vangloriando o “grande” feito do Brasil na guerra contra a invasão do território nacional. Os paraguaios, claro, rechaçam essa versão. No conhecido episódio em que o polêmico goleiro Chilavert cuspiu no rosto do jogador brasileiro Roberto Carlos, num jogo entre Brasil e Paraguai, o arqueiro lembrou o genocídio da Guerra do Paraguai para justificar seu ato extremo. Fica claro que a história serve a quem , conveniente, lhe interpreta.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O NATAL


O final do ano chegou e as luzes do Natal enfeitam a cidade. A força do capitalismo transformou a celebração religiosa numa celebração comercial. Basta lembrar que nas grandes cidades pelo mundo afora, sobretudo para os mais jovens, a grande celebração do Natal acontece nos shoppings. Na sua essência mais pura, o Natal é mesmo uma celebração religiosa que muda de acordo com o credo professado. 
Nos países muçulmanos a celebração correspondente ao Natal cristão é o “Mawlid”, a comemoração do nascimento de “Muhammad “ (Maomé). Não existe um consenso em torno da data e da própria comemoração. Muitos muçulmanos são contrários à festa por entenderem a celebração como uma inovação religiosa, algo que fere o Alcorão (Livro sagrado dos muçulmanos). Até mesmo entre os que celebram existe divergência. Muitos comemoram em 12 de Rabi al-Awwal (terceiro mês do calendário árabe). Já os xiitas comemoram o nascimento de Muhammad em 17 de Rabi al-Awwal (oitavo mês do calendário árabe).
Nas comunidades judaicas o nascimento de Jesus não tem o mesmo significado dos países cristãos. Os judeus reconhecem Jesus como um grande profeta, não como o filho de Deus. A celebração judaica mais próxima do Natal cristão é o Yom Kipur, a comemoração do ano novo, que acontece entre os meses de Setembro e Outubro. Segundo o professor Leon Szkalarowsky , Jesus, que era judeu, também comemorava o ano novo nessa data. Após a Cisão, os cristãos passaram a comemorar o ano novo a partir do nascimento de Jesus. Cabe lembrar que a data em que os cristãos comemoram o Natal, 25 de dezembro, não é exatamente a data do nascimento de Jesus, algo impossível de se precisar. Esse marco cronológico foi estabelecido na cidade de “Antióquia”, Ásia Menor, provavelmente por volta do século IV, como uma adaptação de uma festa pagã, o “Sol Invicto”. 
Independentemente do credo (ou da falta dele), o que se verifica no período natalino é uma aura de felicidade. Até mesmo nas sociedades em que o aspecto comercial se sobrepõe ao religioso, há de se convir que as pessoas se comportam de forma diferente. A roupa nova, a árvore de Natal, o presépio, o nascimento de Jesus, as luzes dos shoppings, o sorriso das crianças, o aumento da caridade, o sentimento de amor, o respeito entre as pessoas na virada do ano, tudo isso há de se perpetuar algum dia. Temos que acreditar que haverá um tempo em que as pessoas se comportarão o ano inteiro como se estivessem no Natal. Àqueles que perderam a esperança de que isso venha a acontecer algum dia, recomendo que desistam de viver. Feliz Natal!

NOS TEMPOS DA ROZENBLIT

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Eu cresci ouvindo discos de frevo, sempre gostei dos clássicos: Claudionor Germano, Capiba, Nelson Ferreira. Viciado em música e nos detalhes das gravações, sempre lia com atenção a ficha técnica. Invariavelmente, via o nome da Fábrica de Discos Rozemblit, dona do lendário selo Mocambo. A fábrica, aliás, localizava-se perto da minha casa. Descobri a importância da Rozenblit ainda garoto. O pai de um amigo meu era funcionário da gráfica da gravadora e trazia um monte de folhetos para a gente brincar. Tinha até ficha de inscrição de artistas. Preenchíamos tudo sonhando com o estrelato no futuro. Coisas de criança.
A Rozenblit não foi uma simples gravadora, foi o maior empreendimento no ramo fonográfico fora do eixo Rio-São Paulo. O grupo Rozenblit iniciou suas atividades com a comercialização de receptores de rádio. Como o estado de Pernambuco era pioneiro na radio difusão – a primeira rádio do Brasil, Rádio Clube de Pernambuco, foi fundada aqui em 1919 - esse era um mercado crescente na região. A loja da família Rozenblit diversificou os negócios passando a representar o selo RCA Victor.
A primeira criação - A loja Irmãos Rozenblit começou a importar toca-discos Garrard mas vendia o eletrodoméstico com uma adaptação: uma estrutura de móvel. Marceneiros contratados pela loja, copiavam e criavam móveis para as peças importadas. Um modelo que se tornaria popular, mais tarde, com a Fábrica ABC. A novidade agradou às famílias mais ricas e a loja vendeu bastante.
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José Rozenblit – Quando José Rozenblit passou a ter mais força no grupo, o sonho da fábrica de discos começou a ganhar força. Em Outubro de 1953, na Estrada dos Remédios, bairro de Afogados, foi fundada a Fábrica de Discos Rozenblit. Seguindo o modelo das grandes fábricas de discos, a Rozenblit criou o seu próprio selo, denominado “Mocambo”. Entre as décadas de 50 e 60 (século passado), a Rozenblit viveu sua era de ouro. Era detentora de 22% do mercado nacional e 50% do mercado regional de discos. A essa altura, tudo era feito no Recife: a prensagem do vinil, a parte gráfica e a distribuição.
Em 1966 uma grande enchente destruiu um terço das instalações da Rozenblit. A partir daí a fábrica entrou em processo de decadência. Duas outras enchentes - 1970 e 1975 – decretariam o fim da lendária fábrica de discos. Para se ter ideia da importância da Rozenblit, vale lembrar que faziam parte do cast da gravadora artistas como Jorge Ben, Johny Alf, Martinha, Bob de Carlo, Cartola, Monarco, Capiba, Nelson Ferreira, Zé Ramalho, entre outros. A história da produção fonográfica do Brasil tem na Fábrica de discos Rozenblit um dos mais importantes capítulos.

MÓRBIDO ENTRETENIMENTO

Uma das coisas que mais me intrigam, é a mórbida atração que muitas pessoas têm por notícias ligadas à violência. Isso não é de hoje. Lembro-me bem de que há anos imperam nas rádios aqui do Recife, em dois horários, os noticiários policiais. Gino César é uma verdadeira lenda na radiofonia policial de Pernambuco. O mais incrível é que essa enxurrada de notícias, sobre violência, chega aos ouvintes nos horários das refeições:

*No rádio: Café da manhã e almoço.

*Na tevê: Jantar

Muita gente se acostumou com essa rotina: alimentar-se ouvindo a lista de mortos, de prisões, de atropelamentos e tantas outras formas de violência. Esse comportamento é, no mínimo, estranho. Os veículos de comunicação, há muito, perceberam essa mórbida tendência da população e começaram a investir nessa área. Durante anos dois tradicionais jornais de Pernambuco, Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco, dominaram as vendagens sem nunca serem alcançados pelas novas publicações que surgiram (e sumiram) ao longo dos tempos. Em 1998, porém, foi criada a Folha Pernambuco, que ganhou popularidade mostrando a violência de forma explícita. Depois que se popularizou e se firmou como um grande jornal de Pernambuco, a Folha sofreu uma reformulação mas continua trazendo um encarte onde a violência ainda é mostrada de forma explícita.

O noticiário policial virou uma estratégia para alavancar a audiência. Na década de 80, o repórter J. Ferreira fez história com o programa “Blitz, Ação Policial”, veiculado primeiramente no rádio e depois na tevê. Recentemente, o Jornal da Tribuna, um telejornal local aqui do Recife, investiu no noticiário policial e chegou a brigar pela audiência com o NE-TV, da Rede Globo. A TV Tribuna, inclusive, criou um telejornal específico para o noticiário policial, o Ronda Geral, dado o sucesso do Jornal da Tribuna.

Mas, em se tratando de sucesso no noticiário policial, nada se compara ao programa “Bronca Pesada”, apresentado no rádio e na tevê por Joslei Cardinot. O programa é um sucesso absoluto, sobretudo na periferia. Joslei Cardinot Meira é um baiano que iniciou sua carreira de radialista com apenas 14 anos na Rádio Cultural de Campos, no Rio de Janeiro. Chegou a apresentar um programa, pasmem, com Antony Garotinho, ex-governador do Rio. Cardinot (como é popularmente conhecido) chegou ao Recife em 1984 para trabalhar na Rádio Globo e foi galgando espaço até desbancar (na audiência) o lendário repórter policial J. Ferreira. Polêmico, Cardinot alterna duas faces: o jornalista durão, que grita com o bandido, e o apresentador que faz piadas com as notícias policiais. Cardinot é um dos maiores sucessos da rádio e da tevê pernambucana dos últimos tempos.

A veiculação do noticiário policial dando ênfase à violência nua e crua, que se sobrepõe ao fato jornalístico, é uma triste realidade. O mais triste nisso tudo é que a audiência é grande porque as pessoas querem que seja assim pois ligam a tevê e ajudam a popularizar esses programas. O conteúdo de qualidade é mostrado em horário alternativo, difícil de ser acompanhado. Enquanto isso, vamos nos acostumando a ver na tevê a exploração da violência como algo normal. Cabe aqui uma célebre frase de Bertolt Brecht: "Não digam nunca: Isso é natural. Para que nada passe por imutável"

Abaixo, uma das pérolas do Bronca Pesada:

ERA UMA VEZ O DINHEIRO VOLÁTIL

Outro dia, folheando minha velha Carteira de Trabalho, deparei com a cifra de 780 Cruzados, meu salário na época. Puxei pela memória e não consegui construir uma imagem que me desse noção do que representava essa soma de dinheiro naquele tempo. Sei que não era muito porque se tratava de um salário de comerciário. Estranho é não poder materializar uma soma monetária que existiu há tão pouco tempo.

O dinheiro brasileiro tornou-se volátil por causa da inflação galopante. Mensalmente a moeda era triturada e perdia valor como num passe de mágica. Na década de 80, do século passado, a caderneta de poupança, por exemplo, era reajustada mensalmente num percentual superior a 50%. Era a chamada correção de inflação. Na verdade, o rendimento era quase o mesmo de hoje, pouco mais de meio por cento. Exemplificando: Num reajuste de 52%, 51,5% correspondiam à correção de inflação e 0,5%, ao rendimento real.

No início da década de 90, o piloto Michael Shumacher protagonizou uma história que serve de exemplo para se entender a volatilidade das moedas brasileiras. Ele estava no Rio de Janeiro para participar, pela segunda vez, do Grande Prêmio Brasil de Fórmula Um. Shumacher pegou um táxi e, ao final da corrida, tentou pagar com algumas notas de Cruzeiro Real que guardara do ano anterior. O taxista, sorrindo, informou-lhe que aquela soma de dinheiro (que pagara a corrida do ano anterior) não pagava nem um cafezinho.

Os anos se passaram, chegamos ao Real e nos acostumamos com a estabilidade econômica. Hoje em dia, é inimaginável pensar em cédulas de dez mil ou cem mil, como era comum na época do dinheiro volátil. Refresque sua memória e relembre (ou conheça), abaixo, algumas cédulas que circularam no Brasil nos últimos setenta anos:

Mil Réis - Circulou entre 08/10/1834 e 01/11/1942
Cruzeiro - Circulou entre 01/11/1942 e 13/02/1967
Cruzeiro Novo - Circulou entre 13/02/1967 e 15/05/1970
Cruzeiro - Circulou entre 15/05/1970 e 28/02/1986
Cruzado - Circulou entre 28/02/1986 e 15/01/1989
Cruzado Novo - Circulou entre 15/01/1989 e 15/03/1990
Cruzeiro - Circulou entre 15/03/1990 e 01/08/1993
Cruzeiro Real - Circulou entre 01/08/1993 e 01/07/1994
Real - Criada em 1994, é a moeda atual do Brasil.

AOS QUE NÃO GOSTAM DE MATEMÁTICA

Virou retórica! Basta alguém dizer que não gosta de Matemática que a resposta pronta aparece: “é porque você não teve bons professores na infância”. Existem os que não gostam de História, de Geografia, de Português, de camarão, de chocolate, de sopa, de argentino, etc, etc. Você só não pode “não gostar de Matemática”. Para esse "grave" defeito, tem que haver uma explicação lógica (com o perdão do trocadilho).

Acredito que os maus professores (assim como os bons) deixam marcas profundas, isso é inegável. Mas essa explicação simplista serviu para enfiar (de forma cruel) na cabeça de muitas pessoas a falsa ideia de que o que é importante para mim, na mesma medida, tem que ser para você. O gostar é uma apreciação subjetiva, independe da importância do objeto de adoração. A interdisciplinaridade, tão badalada nos dias de hoje, é uma tentativa (muitas vezes inglória) de desmontar a hierarquização das disciplinas que jogou no limbo, por exemplo, matérias importantes como a Filosofia, a Sociologia e o ensino de Artes.

Tive ótimos professores de Matemática. Lembro-me de um , em particular: Professor Lidelmo (já falecido). Ao resolver uma equação, entusiasmado, ele perguntava: “isso não é lindo ?” Eu sempre discordava porque, entre as palavras e os números, sempre preferi a primeira opção. Termino esse breve post com uma frase do Caetano Veloso que confere aos frios números o status de palavra. Para transmitir a ideia de erro, disse ele: Tudo certo como dois e dois são cinco”.

A IMPORTÂNCIA DAS ESCOLHAS

Cresci num bairro pobre do Recife. Para se ter ideia do que isso significa, por muitas vezes a capital pernambucana figurou na lista das cidades mais hostis para um jovem viver. Chegou a ser a quarta pior do mundo, na década de 90. Recife é uma cidade dificílima de se viver para quem mora em um bairro pobre. Por várias vezes retrocedi mentalmente buscando respostas para entender o porquê de eu ter vencido e sobrevivido a tudo isso. Acabei sempre chegando à questão das escolhas. Parece simples, mas uma escolha errada pode determinar o fracasso de quem vive sem direito a uma segunda chance.

Percebo agora que, instintivamente, quase sempre fiz as escolhas certas: escolhi os amigos certos: falávamos de cinema, televisão e música, muita música. Enquanto outros tantos se perdiam na violência da vida, eu e meus poucos amigos de infância nos preocupávamos em descobrir o porquê do Lennon ter escrito “essa” e o Paul “aquela”, as mensagens nas entrelinhas dos textos do Renato Russo. Chegamos a passar um dia inteiro tentando decifrar os detalhes de uma capa de disco enquanto o mundo explodia lá fora. Não, isso não era alienação, era esperteza. O nosso mundo era bom porque nós o fizemos assim. Só para que fique registrado, meus amigos ainda são os mesmos.

Tive poucas oportunidades na vida mas aproveitei (muito bem) todas. Fui aluno de escola pública no momento em que ela começou a declinar, perder o brilho. Muitos desistiram, optaram pelo subemprego, um biombo que esconde um monstro devorador de vidas. Eu escolhi ficar. Obviamente, por ser jovem e inexperiente, temia pelo meu futuro, tive momentos de dificuldades, chorei várias vezes, mas não arredei o pé da escola. Cumpri essa etapa da vida, heroicamente, porque eu escolhi ficar!

Como ninguém é perfeito, houve um momento em que escolhi errado. Conclui o Segundo Grau (Ensino Médio) e como naquela época (1986) pensava que a universidade era um sonho utópico, decidi não tentar. Essa escolha errada me custou quase uma década de desacertos e desencontros. Mas, como não costuma acontecer com os jovens dos bairros pobres, foi-me dada a chance de escolher de novo. Consegui um bom emprego numa multinacional do ramo automobilístico e, como a maioria, poderia ter-me acomodado com aquela benesse temporária. Escolhi tentar a faculdade para transformar a benesse temporária em perene. Estudei, passei no vestibular, me formei, fiz mais amigos, passei em três concursos públicos, fiz duas pós-graduações e continuo alimentando sonhos. Tudo porque escolhi certo.

Abaixo, um dos hinos da minha juventude. Devo muito a essa música:

PARA QUE SERVE O CID ?

2009 tem sido um ano difícil para mim. Passei por dois problemas de saúde mas, enfim, sobrevivi. Além do desconforto de estar doente, tive que enfrentar outro problema: o impasse entre os médicos e a Junta Médica (órgão que defere, ou não, as dispensas médicas dos funcionários públicos). Dois dos médicos que me atenderam recusaram-se a colocar o CID (Classificação Internacional de Doenças) alegando que o uso do referido código foi suspenso por uma questão de ética. O sigilo médico e a exposição (constrangedora) da doença do paciente são razões também alegadas.

Completamente alheias a essa orientação, as juntas médicas exigem a colocação do CID nos atestados sob pena do indeferimento dos mesmos. Por duas vezes, nesse ano, estive no meio desse impasse. A contragosto, e protestando contra Deus e o mundo, os médicos que me atenderam acabaram colocando o tal código. Profundamente irritado com isso abri o “oráculo que tudo sabe”, o Google, e fui pesquisar. Deparei-me com a “Resolução CFM nº 1.819/2007” publicada no Diário Oficial da União em 22 de Maio de 2007, que resolveu no seu Art. 1º “Vedar ao médico o preenchimento, nas guias de consulta e solicitação de exames das operadoras de planos de saúde, dos campos referentes à Classificação Internacional de Doenças (CID) e tempo de doença concomitantemente com qualquer outro tipo de identificação do paciente ou qualquer outra informação sobre diagnóstico, haja vista que o sigilo na relação médico-paciente é um direito inalienável do paciente, cabendo ao médico a sua proteção e guarda”.

Mas, como nada é perfeito, esse mesmo artigo, no seu parágrafo único (irritantemente subjetivo), dá margem a interpretações diversas: “Parágrafo Único. Excetuam-se desta proibição os casos previstos em lei ou aqueles em que haja transmissão eletrônica de informações, segundo as resoluções emanadas do Conselho Federal de Medicina”. Não sou jurista, mas percebo que uma coisa ficou clara nessa Resolução: é permitido o uso do CID se a receita (ou qualquer outro documento médico) for transmitida eletronicamente. Algo como um doc. com assinatura digital enviada por e-mail.

Agora, imagine você com uma crise de Cefaleia em Salvas (dor de cabeça intensa e constante) sendo jogado de um lado para o outro por causa desse impasse? Passei por isso e me senti de mãos atadas. Pretendo enviar esse post à Ouvidoria Pública aqui do Estado de Pernambuco e rogo que as pessoas que passaram (ou passarem) por esse problema também reclamem. Respeito é o que queremos.

Quem quiser conferir a Resolução CFM nº 1.819/2007 na íntegra, clique aqui.

DESTRINCHANDO O CEDÊ DA SUSAN BOYLE


Hoje tive o prazer de ouvir I Dreamed a Dream”, o tão esperado cedê de estreia do fenômeno midiático Susan Boyle. O álbum foi lançado com toda pompa no dia 23 de novembro passado, com direito a capa na Rolling Stones americana e tudo o mais. Por falar em capa, tomei um susto (no bom sentido) quando vi a foto do cedê. A imagem que eu – e o mundo todo – tinha da Susan era daquela simpática senhora inglesa de meia-idade. Em tempos de Photoshop, o milagre da transformação da imagem tornou-se algo corriqueiro. Como pode-se notar, na foto que ilustra esse post, Susan Boyle mudou bastante.
O disco é uma deliciosa colcha de retalhos, foi feito para agradar a gregos e troianos. Começa com “Wild Horses”, dos Stones. Nessa canção, a voz da Susan ficou bem diferente, nem parece ela. Quem ouve não consegue associar a voz à imagem dela. A versão ficou belíssima. Em seguida vem a chatinha “I Dreamed A Dream”, música que revelou a cantora para o mundo. Só aí você se lembra daquela cena do show de calouros que virou hit no Youtube. Na sequência vêm dois grandes standards da música americana: “Cry Me River”, escrita por Arthur Hamilton e gravada por Ella Fitzgerald e "How Great Thou Art”, uma canção do século XIX , sucesso na voz de Elvis Presley em 1974. As duas canções tiveram tratamento especial, arranjos impecáveis e a interpretação dela ficou a altura dos dois clássicos. Obviamente os puristas torcerão o nariz, mas ninguém poderá dizer que o vozeirão da Susan maculou os clássicos.
Depois do rock e dos clássicos, o disco envereda pelo pop. A faixa cinco traz “You'll See”, a belíssima canção da Madona. Não gostei dessa faixa porque ficou muito parecida com o original. Em determinados trechos não dá pra ter certeza se é Susan ou a própria Madona que está cantando. A sexta faixa traz um clássico dos Monkees, “Daydream Believer”, cantada em voz e piano. Impecável! A sétima faixa é um dos pontos altos do álbum. Susan interpreta o folk “Up To The Mountains” de forma espetacular. Em alguns momentos parecia a Linda Ronstadt cantando. Nessa canção, ela arriscou notas mais altas e acertou em cheio.
A partir da religiosa “Amazing Grace”, o disco fica um pouco monótono chegando a ficar cansativo nas faixas "Who I Was Born To Be", "Pround" e "The End Of The World". O álbum termina de forma apelativa com a canção natalina “Silent Night (Noite Feliz)”, claramente incluída para alavancar o disco nas vendas de fim de ano. Com certeza Susan Boyle terá um Natal diferente.

A INQUISIÇÃO PARTICULAR DE COTTON MATHER

Muito já se falou a respeito das atrocidades cometidas, “em nome de Deus”, pela Igreja Católica durante a Idade Média. O assunto é clássico e sempre gera muita polêmica. Entretanto, alguns eventos que copiaram o modelo de perseguição e tortura praticado pelos inquisidores católicos são vistos de forma distorcida ou atenuados com a eufêmica classificação de “manifestação folclórica”.

Um desses episódios foi protagonizado por Cotton Mather, no século XVII, na colônia inglesa da Nova Inglaterra, hoje, Estados Unidos. Mather nasceu numa família puritana e teve rígida educação. Filho do influente Reverendo Increase Mather, foi um garoto prodígio, ingressou na conceituada Faculdade de Harvard com apenas 12 anos. Com 18 anos incompletos já era detentor do título de mestrado em medicina.

Cotton queria ser professor em Harvard, mas uma limitação funcional aniquilou esse sonho: ele era gago. Frustrado, por não atuar na função que sempre sonhou, acabou optando pela vida religiosa. Obviamente, a mudança forçada de rumo na sua vida deixou marcas que transformaram o ex-aspirante a professor em uma figura amarga.

Em 1865, com apenas 22 anos, Cotton começou a atuar como pastor assistente ajudando o seu pai. A vida religiosa não o afastou da medicina. Aplicado, estudava os distúrbios da mente, sobretudo a histeria. Ciência e religião transitaram na vida de Mather e, por vezes, acabaram se misturando. Seu nome foi eternizado no polêmico caso dos julgamentos das Bruxas de Salém, ocorridos em Massachusetts, em 1692. Mather era o religioso responsável pelo vilarejo de Salém. Ali, ele era encarregado de fazer as acusações contra os supostos praticantes de bruxaria. Estes eram levados a julgamento na corte do juiz Samuel Sewall que seguia, sem contestar, as indicações dele.

As perseguições às supostas Bruxas de Salém começaram a partir do julgamento de uma escrava de nome Tituba, que diziam ser praticante de vuduismo. Na verdade, Tituba havia contado histórias sobre vudus - Comuns na África Ocidental, seu local de origem - para algumas amigas que ficaram impressionadas e acabaram tendo pesadelos. Um médico acabou atestando que as meninas estavam embruxadas. Uma histeria coletiva tomou conta de Salém e dezenas de mulheres foram declaradas bruxas sendo, posteriormente, executadas na fogueira.

Cotton Mather, um intelectual com formação clássica, transformou-se num cruel inquisidor que conseguia, inclusive, contaminar pessoas importantes com suas teses de satanismo e bruxaria. O próprio juiz Samuel Sewall, anos depois, reconheceu que as execuções ocorridas no vilarejo de Salém foram um erro. O modelo de Mather é reproduzido até os dias de hoje. Cansamos de ver na tevê histórias de linchamentos (físicos e de ordem moral) em que a histeria se sobrepõe à razão, tudo em nome da lei.

Abaixo, o trailer do Filme "As Bruxas de Salém (The Crucible)", bastante útil para melhor compreensão dessa triste história.

O APITO DO ELMO E A SURDEZ DE CLEBER E MARCÍLIA

Gosto muito de futebol, mas ando meio sem ter o que ver já que o meu time, o Santa Cruz, foi enterrado na quarta divisão. Isso mesmo, quarta divisão, o ponto mais próximo do inferno que um time pode chegar. Mas, viciado que sou, fui ver Palmeiras e Sport na última quarta-feira. Na partida anterior, o Verdão havia jogado contra o São Paulo e reclamou da arbitragem. Muricy até invadiu o campo para tomar satisfações com o árbitro. No jogo com o Sport, o Palmeiras começou levando dois gols e iniciou-se o drama.

Durante quase toda a partida, heroicamente, o quase rebaixado Sport comportou-se como um time de primeira divisão. Sem a pressão do rebaixamento – já que o fato era dado como quase certo – o time jogou leve e merecia, inclusive, a vitória. Mas, como vem acontecendo nesse campeonato, o árbitro resolveu aparecer. O senhor Elmo Cunha apitou (equivocadamente) o impedimento do zagueiro Danilo, que marcou o segundo gol do Palmeiras. As câmeras mostraram que o jogador estava em posição legal, mas, com o apito, os jogadores do Sport pararam. Inexplicavelmente, o juiz fingiu-se de morto e validou o gol.

Esse estúpido "erro" foi detectado por TODOS que assistiam a transmissão da Rede Globo. Deu para ouvir claramente o apito do senhor Elmo. Para minha surpresa, o narrador Cleber Machado – que eu reputo como um dos melhores da tevê – e o comentarista de arbitragem Renato Marcília, amarelaram. Fingiram que não ouviram o que todo mundo ouviu. Lembrei-me, na hora, do humorista Chico Anísio. Na década de 90 ele comentava jogos nas transmissões da Globo. Terminou desistindo do ofício. Quando perguntaram o porquê da desistência, ele explicou: “É impossível ser honesto e comentar com imparcialidade se os comentaristas da Globo usam um ponto eletrônico no ouvido e ficam recebendo ordens durante a transmissão”. Será que Cleber e Marcília receberam uma ordem para se fingirem de surdos? Nunca saberemos, mas isso pouco importa, a arbitragem tendenciosa ficou clara. Dessa vez, o técnico Muricy Ramalho não invadiu o campo para reclamar.

O Sport Recife entrou com um processo no STJD pedindo a anulação da partida. Claro que isso não vai acontecer. Se fizesse parte do quadro de árbitros da FIFA, assim como Carlos Eugênio Simon, o senhor Elmo Cunha ganharia um prêmio: seria incluído na lista de árbitros pré-selecionados para a Copa do Mundo. É o futebol brasileiro. "Erros" de arbitragem continuarão acontecendo e narradores e comentaristas continuarão fingindo-se de surdos e cegos.

O MURO QUE CAIU E O MURO QUE AINDA RESISTE

O Muro Que Caiu

Há exatos vinte anos, na noite do dia 09 de novembro de 1989, um dos maiores símbolos da Guerra Fria começou a desmoronar. Durante vinte e oito anos o chamado “Muro da Vergonha”, dividiu a Alemanha e a vida de muita gente. Ironicamente, essa linha divisória de concreto foi construída pelo lado alemão que trazia a democracia no nome: República Democrática Alemã.

Durante as quase três décadas que ficou erguido, o muro provocou a morte de oitenta pessoas que foram devidamente identificadas e fazem parte, agora, dessa triste história. Muitos conseguiram transpor essa barreira física e saíram ilesos. A imagem do soldado da Alemanha comunista soltando o fuzil e correndo para o lado capitalista, virou um ícone da Guerra Fria e foi usada em diversos cartazes e propagandas contra o muro.

A Queda

Se a construção do muro foi considerada um equívoco, a queda também começou a partir de um FELIZ equívoco. Na tarde do dia 09 de Novembro de 1989, Günter Schabowski , porta-voz do Partido Socialista Unificado, anunciou na imprensa uma decisão do Conselho dos Ministros de abolir as restrições de trânsito entre as duas Alemanhas. A decisão passaria ainda pelos trâmites legais para que todas as agências de segurança tomassem conhecimento. Entretanto, depois da divulgação da notícia, a população da Alemanha Oriental entendeu que aquele já era o anúncio do fim do muro. A multidão marchou em direção a grande muralha e a história se consumou. Era o fim de um dos maiores símbolos da estupidez humana.

O Muro Que Ainda Resiste

Em 2002, o então primeiro ministro israelense Ariel Sharon, com a justificativa de barrar a entrada de terroristas palestinos em Israel, ordenou a construção de uma muralha que separava os territórios da Cisjordânia de Israel. A muralha israelense, diferentemente da alemã, que era política, é baseada na segregação. Na Alemanha, um povo de uma mesma etnia foi dividido. Na Cisjordânia, o muro divide etnias diferentes. A grande (e triste) ironia dessa história é que os israelenses estão usando um princípio nazista, o da superioridade de uma raça sobre outra.

O “muro da vergonha” israelense continua sendo erguido e avança sobre territórios que Israel julga ser de sua propriedade. Várias entidades de direitos humanos pelo mundo afora condenam essa obra e fazem relação com seu antecessor alemão. No último dia 06, manifestantes palestinos conseguiram deslocar um pedaço da muralha e fizeram um protesto relâmpago contra a obra e o governo de israel.

Esse modelo de segregação, infelizmente, já chegou ao Brasil. No Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral ordenou a construção de muralhas para isolar onze favelas. A primeira foi erguida no morro Dona Marta (foto ao lado). Para exemplificar o que significa isso, termino esse post com uma frase de Salah Tamir, prefeito de Belém, uma das cidades isoladas pelo muro israelense: “esse muro está convertendo Belém em uma grande prisão ao impedir a livre circulação dos seus habitantes”.

LEMBRA-SE DAQUELE COMERCIAL?

Outro dia estava eu a garimpar revistinhas de cifras de violão – hábito quase deixado de lado depois das facilidades da internet – num sebo do centro do Recife. Dei de cara com uma revista de 1982 que trazia, entre os sucessos da época, as cifras de dois jingles dos comerciais da calças US Top. Pensei: “tem gente por aí que senta numa roda de amigos e fica tocando essas músicas?”. Já em casa, fui ao violão e relembrei as duas belas canções. Não foram simples jingles, foram sucessos estrondosos que as pessoas cantarolavam até no chuveiro:

Em 1976:

Liberdade é uma calça velha azul e desbotada

Que você pode usar do jeito que quiser

Não usa quem não quer

US Top, desbote e perca o vinco

Denim índigo blue”

Em 1982:

"Um jeans é pouco do céu, um jeans é um pouco do sol

É só você se soltar caminhar nessa estrada

E andar nesse caminho natural

Vamos deixar nossas marcas no chão

No caminho US Top"

Vivíamos numa época de dura repressão política e esses jingles refletiam a ideia de liberdade, muitos morreram sem consegui-la. Os dois jingles que destaquei acima fizeram muito sucesso entre os jovens. Entretanto, o maior sucesso de todos os tempos na propaganda brasileira foi o a canção “Estrela Brasileira” da empresa de aviação Varig. Escrito por Caetano Zamma, foi veiculado inicialmente no rádio, na década de 60, depois foi levado à tevê onde virou hit com o Coral Rubem Berta:

"Estrela brasileira no céu azul

Anunciando de norte a sul

Mensagem de amor e paz

Nasceu Jesus, chegou natal

Papai noel voando a jato pelo céu

Trazendo um natal de felicidade

E um ano novo cheio de prosperidade

Varig, Varig, Varig"

Para os saudosistas, seguem os vídeos dos jingles citados no post.

JULGANDO O DISCO PELA CAPA VOL. 02

Bob Dylan – The Freewheelin (1963): O segundo álbum do trovador do rock tem uma linda capa. Não sou muito fã do Bob Dylan, confesso que não entendo como ele é tão cultuado até hoje. Mas isso é outra história, o que está sendo julgado aqui é a capa. Nesse quesito o álbum “ The Freewheelin” é nota 10.

John Lennon – Yoko Ono - Two Virvens (1968): um disco experimental lançado na fase pré-carreira solo de Lennon. Imagine o escândalo que essa capa provocou em 1968, ano do seu lançamento. A EMI recusou-se a lançar o disco e a dupla Lennon – Yoko teve que recorrer a um selo independente. O disco não tem músicas, apenas uma série de experimentos sonoros.

Dabbie Harry – Koo Koo(1981): ver o rosto belíssimo da Blondie Dabbie Harry atravessado por agulhas causou mais emoção do que a audição das doze faixas desse disco. Essa capa é sempre lembrada como uma das melhores da década de 80.

Sepultura – Roots (1996): A melhor capa do Sepultura, sem dúvidas. Essa imagem tribal marcou a guinada que a banda deu no seu som. Desagradou a muitos, é certo, mas, no geral, o disco foi celebrado. O clipe da música “Roots, blody roots” feito a partir de animação, fez muito sucesso.

Rollingssss Stones – Tatto You (1981): Os Stones são especialistas em capas boas. Essa imagem do disco Tatto You, dizem, inspirou a criação da personagem, “Mistica”, da série X-Men.

Os Mutantes – Os Mutantes (1968): capa boa e disco bom! Nada mais precisa ser dito sobre essa obra. Os Mutantes sempre foram performáticos, mas nunca deixaram que a misancene fosse mais importante que a música. Uma dádiva!

Roxy Music – Country Life (1971): Todos os discos do Roxy Music (exceto Avalon – 1981) trazem mulheres na capa. Em Coutry Life, a banda recrutou duas prostitutas que causaram escândalo ao aparecerem semi-nuas. O disco é um dos melhores da banda, traz o clássico "The Thrill Or It All".

Gal Costa – Índia (1973): essa capa sensualíssima (e belíssima) fazia a alegria dos adolescentes na década de setenta, um clássico. Esse disco é mais uma exemplo da dobradinha capa boa-dico bom.

Nirvana – Nevermind (1991): Essa clássica capa do Nirvana é tão boa que até o presidente Lula resolveu imitar (confira aqui). É um dos ícones da geração grunge. Mais um exemplo da dobradinha disco bom-capa boa.

The Clash – London Calling (1979): A capa do grande disco do The Clash foi a última grande imagem do movimento punk da década de setenta. Em quase todas as listas dos grandes discos de rock de todos os tempos, “London Calling” está entre os dez primeiros, sendo que, em várias eleições ele está no topo. Não bastasse esse histórico sonoro, tem essa iconográfica capa. Sem palavras!