CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA QUASE TRAGÉDIA

Lembrei-me dos versos de uma canção dos Titãs (Epitáfio) ontem quando me desviei de uma tragédia: “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”. Em uma das escolas em que trabalho houve um desabamento parcial de um dos prédios que compõem o complexo. Um casarão antigo, quase centenário, aparentando ótimo estado de conservação, perdeu parte da fachada. Mas o que isso tem a ver com a canção dos Titãs? Explico: o acidente aconteceu num momento em que não havia ninguém no prédio nem nos corredores. Depois de um dia inteiro de aula, de crianças transitando pelo local, o prédio “escolheu” o horário de solidão entre os turnos para tombar e dar sinais de que uma restauração de verdade tem que ser feita. De arrepiar!

Atônito com a imagem dos escombros desencanei de tentar entender o monte de “porquês” que cercam mais esse mistério da vida. A maioria disse que foi obra de Deus, outros falaram que foi um capricho do destino (só se morre no dia), houve ainda os que apenas choraram. Eu, que cotidianamente passo pelo local onde houve o desabamento (no horário em que tudo aconteceu), sabe-se lá por que, resolvi jantar em casa ontem e soube do acidente através de uma ligação assustada de um amigo. Hoje, com o perdão do paradoxo, celebro a vida ouvindo “Epitáfio”

VINTE ANOS DEPOIS, SAUDADES DA MTV ÍTALO-BRASILEIRA

Lembro-me bem quando a MTV estreou aqui em Recife no início dos anos 90. Quem tinha aparelho de tevê antigo – eu estava incluído nesse grupo – teve que comprar antena e conversor de UHF para sintonizar o canal 27. A MTV dessa primeira fase – a melhor de todas, para mim – era descendente de italianos. Eu e um grupo de amigos costumávamos brincar com essa coisa da emissora ter um monte de vj´s com sobrenomes italianos . Só pra lembrar: Anderson Bizzocchi, Astrid Fontenelle , Cuca Lazarotto , Daniela Barbieri , Edgard Piccoli , Fábio Massari , Lorena Calabria , Sabrina Parlatore, Soninha Francine, Tathiana Mancini e Cazé Peçanha(Pecini). Acrescento a esse grupo ítalo-brasileiro, Gastão Moreira, Zeca Camargo e João Gordo .

Os melhores programas da MTV são da década de 90: “Hit´s Mtv” que era apresentado por Gastão e desfilava clipes dos grandes sucessos do pop e do rock mundial. “Clássicos MTV”, apresentado por Fábio Massari, trazia os clipes jurássicos do pop e do rock mundial. “Lado B”, apresentado por Kid Vinil (depois por Fábio Massari), como o próprio nome indica, desfilava clipes do underground, da turma ignorada pela mídia. Não poderia deixar de relembrar o ótimo "Garganta e Torcicolo”, melhor fase de João Gordo na MTV.

Da MTV de hoje, só consigo ver o “Top Top” quando o tema é bom. Hoje em dia com a ascensão do pop rock idiota – aquele de franjinhas, boquinha torta e figurino de grife – exaltado na última edição do VMB, a MTV perdeu o brilho. Tornou-se uma emissora chatíssima que faz sucesso entre os revoltados de butiques. Triste! Apesar de tudo, pelo passado descrito nos dois primeiros parágrafos desse breve post, rendo homenagens a MTV Brasil e choro de saudades da MTV ítalo-brasileira.

A CULTURA POP DOS ANOS OITENTA E A TRISTEZA DE OUVIR O RESTART

Os intelectuais odeiam, sei, adoram tratar os anos oitenta como trash (no sentido mais pejorativo que esse termo carrega) e sem sentido. Vá lá que em parte eles estão certos, tinha muita coisa tosca nos anos oitenta, mas quem é que liga pra isso? Eu vivi essa época e adoro relembrar. Num recuo bem jurássico, lembro-me de 1982 quando a performática banda carioca “Blitz” - Nascida do não menos performáticoo grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone – teatralisou o rock e iniciou uma revolução. “Yes, nós temos rock and roll”, começaram a dizer os críticos, os programadores de rádio, o Globo de Ouro, o Super Special e toda a mídia da época. A banda virou febre e o rock brasuca iniciou sua mais sólida fase.

Algumas bandas desse movimento firmaram-se no cenário nacional e construiram uma carreira de sucesso: Kid Abelha, Titãs, Paralamas, Barão Vermelho Capital Inicial, Plebe Rude, Titãs, Legião Urbana, Nenhum de Nós, Skank, só pra citar as mais conhecidas. O cast musical dessa turma é variado e perene, alcançou os dias de hoje e quase todos os discos dessas bandas, três décadas depois, ainda estão em catálogo.

Não fui tomado por uma onda de saudosismo, não é isso. A lembrança dos anos oitenta me veio como uma espécie de revolta depois que, acidentalmente, vi um trecho do VMB que consagrou a fraquíssima banda que atende pelo nome de “Restart”. Absolutamente nada que esses rapazes fazem pode ser classificado como rock, nem mesmo pop. Pensei: “é isso que a garotada de hoje anda ouvindo?”. Que tragédia! E ainda chamam os anos oitenta de trash! Em forma de protesto, deixo abaixo um vídeo com alguns clássicos dos anos 80:

AMOR E DEVOÇÃO










Não permita que ninguém te devote a alma, lute contra isso
A devoção disfarçada de amor tem efeitos colaterais terríveis
Estarás acorrentado para sempre a esse sentimento
A devoção enlouquece a alma de que a sente
A devoção transita com facilidade entre a ira e a bondade
Não tem limites, não cessa com a dor do outro
Só a sua dor importa, só o seu sofrimento é nobre
A pureza do amor não cabe na devoção
Quem ama e não é correspondido sofre mas não se permite magoar
Não é o amor mais forte que tudo?
Então não sobra espaço para mágoas num coração apaixonado
A devoção só se justifica em um plano etéreo
Pois os santos têm obrigação de correspondê-la
Eles “existem” para isso.
Portanto não ame os santos, seja devoto.
O amor puro não garantirá retorno algum
Sendo devoto você terá o direito de obrigar o outro a te corresponder.

Ed Cavalcante