DIÁRIO DA PERIFERIA - O SENHOR DO DESTINO

Outro dia, a caminho do trabalho, encontrei um amigo de infância. Há muito não nos falávamos. Estávamos num ônibus que tinha como destino a cidade de Olinda (esse é o meu trajeto diário). Eu como passageiro, ele como cobrador (ou trocador, dependendo do seu estado). Depois de uma meia hora de conversa, desci do coletivo entristecido e aliviado. A tristeza veio porque a maior parte das notícias dos amigos do passado tinha um drama atrelado. “Lembra de fulano, se meteu com coisa errada e foi morto. E sicrano, está com dificuldades, cheio de filhos e desempregado”. O alívio foi pela constatação de que sou um dos sobreviventes. À noite, quando cheguei em casa fui rebuscar o passado para tentar descobrir por que o meu destino foi diferente. Crescemos no mesmo bairro, jogamos futebol no mesmo campo (as salinas de um manguezal), freqüentamos a mesma escola.

O primeiro sinal que identifiquei no desvio do meu caminho foi um fato ocorrido no dia 08 de dezembro de 1980. Essa data é feriado aqui no Recife. Nesse dia John Lennon foi morto em Nova York e eu descobri os Beatles. A minha paixão pelos “Fabulous Four”, por tabela, despertou a minha paixão pela música. As horas que eu passava na rua se transformaram em horas tentando aprender a dedilhar o meu violão. Se eu pudesse materializar o que estou sentindo agora, você veria o “senhor do destino” apontando o seu dedo para os garotos da periferia e dizendo: “você vai ser alguém, vocês não. Você vai morrer, você vai matar, você...” Sinistro? Muito, eu sei, mas é assim que as coisas funcionam até hoje. Depois da música veio o gosto pelos estudos e tudo começou a se tornar mais fácil. Meu caminho foi desviado e o dedo em riste do “senhor do destino” não pôde mais me atingir.

Comments

9 Responses to “DIÁRIO DA PERIFERIA - O SENHOR DO DESTINO”

Bete Meira disse...
11 de setembro de 2008 11:38

Esse texto me apertou o core,Ed.Gostariamos que todos os nossos amigos tivessem um belo futuro mas a realidade é diferente,a vida às vezes é cruel e implacável.Você foi abençoado por descobrir a música e a partir daí,os estudos.Quanto ao senhor do destino,não sei bem o que dizer.Só tenho a certeza em meu core de que esse dedo não é o de Deus.Bjão e ainda mais sucesso em sua vida,você mudou o seu destino por vontade,determinação!Você mesmo falou que o ambiente foi o mesmo para todos.Se você conseguiu,os outros também poderiam mas as circunstâncias não foram favoráveis a todos.

greatdj disse...
11 de setembro de 2008 16:21

O destino é realmente algo aterrorizante. Ninguém sabe o futuro e o pior é quando ele não é o planejado.
Não quero sair "perdendo", quero ser alguém, bom, pelo menos temos algo em comum, paixão pela música.
Espero que isso seja um sinal para não cair pelo caminho.

vandre disse...
11 de setembro de 2008 16:22

Realmente, é muito triste quando encontramos alguns amigos de infância, e quando vamos colocar os papos em dias ficamos surpresos por conta das decadências de alguns,graças a Deus que nós posso dizer assim nos sobresaimos dentre alguns,pois nas mesmas salinas batemos nossas boas peladas!só é uma pena que o destino não tenha sido camarada com todos,e muitas vezes alguns procuraram seu propio destino e não deixaram que as coisas fluisem naturalmente e acabam se arrependendo só que as vezes é tarde demais para rever os erros cometidos.Muito bom este seu texto.

11 de setembro de 2008 16:46

que bom que vc seguiu um bom destino né
engraçado que os outros se desviaram
triste

abraços

Pedro Junior disse...
11 de setembro de 2008 17:17

Eh seria bom se todos os nossos amigos pudessem ter uma vida boa, sem ter que recorrer a atitudes do mau digamos asism. mas infelizmente as coisas não são só maravilha...

ótimo texto meio triste, mas bom

Passa lá no meu blog depois
abraços

12 de setembro de 2008 00:21

Às vezes, fico horas pensando nos amigos do passado e adoro a sensação de reencontrar alguém que não se vê há tempo.

O senhor destino está sempre nos pregando peças, mas ainda acredito que, apesar do ambiente, somos resultado de nossas escolhas.

abs

Onbudsman Poético disse...
12 de setembro de 2008 00:49

Ed meu caro, obrigada por sua visita, volte sempre!
Não se trata de "nivelar a humanidade por baixo", o texto que você leu é uma poesia e como tal, possui linguagem figurada, a cargo da conotação do leitor.

Poesia não se explica, cada um sente como quer, pois as palavras ganham profundidade ao serem interpretadas, não ao serem escritas. Já dizia Fernando Pessoa que "Ninguém fala em verso"!

Alcione Torres disse...
12 de setembro de 2008 14:36

Puxa, muito tocante. Às vezes fico pensando pq e como me afastei de certos amigos e amigas. Nem sempre consigi identificar o momento e o motivo, mas quase sempre me aperta o peito por não ter dado continuidade à amizade.

http://sarapateldecoruja.blogspot.com/