MAURITZSTADT, VILA MAURICÉIA, CIDADE DE MAURÍCIO.

Quando eu era garoto, lá pela década de 70, um dos meus programas preferidos era ir ao centro do Recife. Nessa época ,meu pai e seus irmãos tinham uma fábrica de bolsas na rua de Santa Rita, centro velho da cidade, um lugar cheio de história. O prédio ,onde funcionava o fabrico ,era perto do tradicional Mercado de São José. Meu pai tinha (tem até hoje) muitos amigos por lá. Em um dos boxes, onde ele sempre parava ,tinha uma placa com a inscrição “MAURITZSTADT”. Não lembro o nome do dono, mas certa vez lhe perguntei:

-O que significa isso? E o velho me respondeu orgulhoso:

-Esse era o nome do Recife na época dos holandeses.

Anos depois, na escola, descobri detalhes desse período glorioso da história de Pernambuco e o porquê dessa epígrafe. Quando “Johann Moritz of Nassau-Siegen” aportou no Recife, em 1637 a serviço da “Companhia das Índias Ocidentais”, em sete anos, habilidosamente, passou de invasor a benfeitor. Ele recusou-se a apenas explorar a colônia. De formação humanística, tinha gosto pelas artes e pela cultura de um modo geral. Construiu um jardim botânico, um observatório astronômico e um zoológico. Na sua comitiva trouxe dois importantes representantes da arte flamenca: o paisagista Franz Post e o pintor Albert Eckhout, além de engenheiros, arquitetos, médicos e até um lutiê. Outros nomes importantes da comitiva de Maurício: Willem Piso (médico e cientista), Cornelis Golijath (cartógrafo), Georg Marggraf, astrônomo que divide com Willem Piso a autoria da “Historia Naturalis Brasiliae”, a primeira obra científica sobre a natureza brasileira.

Maurício de Nassau também soube lidar com as diferenças de culto. Calvinista de formação, permitiu que os nativos ,que haviam se convertido ao catolicismo ,e os portugueses continuassem com suas práticas religiosas. O mesmo tratamento foi dado aos judeus, muito perseguidos pelos lusitanos. Nassau era um obstinado: queria transformar o Recife numa cidade moderna seguindo os moldes da Europa. Todo o traçado urbano dos bairros de São José e Santo Antônio remonta dessa época. Era o que ele denominava “Projeto da Cidade Maurícia – a Mauritzstadt”.

O projeto de Maurício de Nassau foi interrompido porque ele entrou em conflito com a Companhia das Índias Ocidentais que estava cobrando empréstimos feitos aos senhores de engenho. Nassau não concordava com a forma de cobrança (deveria ser parcelada e estavam cobrando de uma só vez). Ele entregou seu posto e voltou para a Europa em 1644. Maurício de Nassau morreu no dia 20 de dezembro de 1679 na cidade de Kleve. No Recife ele virou lenda, fez até um boi voar. Mas isso é história para um outro post!

Comments

17 Responses to “MAURITZSTADT, VILA MAURICÉIA, CIDADE DE MAURÍCIO. ”

greatdj disse...
18 de outubro de 2008 16:22

Estarei ancioso para ver o boi voar. Mas achei interessante o que você disse, já que na escola aprendemos que todos os portugueses são os exploradores malvados e os índios o povo indefeso.
Legal ver que teve alguém que trouxe benefícios.

Everaldo Ygor disse...
18 de outubro de 2008 21:18

Olá...
Sempre bom retornar por aqui e ainda apreciar um ótimo post -informativo como este...
Abraços Saudosos
Everaldo Ygor
http://outrasandancas.blogspot.com/

Dário Souza disse...
18 de outubro de 2008 22:40

Po interessantissimo isso,so doido pra conhecer recife,todo mundo fala que é um lugar encantador.

Falling Sun disse...
18 de outubro de 2008 22:45

Legal esse blog-história, rs
é bem diversificado e o conteúdo
é bastante interessante, legal mesmo.

19 de outubro de 2008 13:04

Nossa , também quero saber como ele fez o boi voar..

Muito legal essa historia de recife...


Se cuidah*

19 de outubro de 2008 13:04

Nossa , também quero saber como ele fez o boi voar..

Muito legal essa historia de recife...


Se cuidah*

amandaedalete disse...
19 de outubro de 2008 20:40

Que legal umvc é de Recife que cool
\o/ tbm sou

Euzer Lopes disse...
19 de outubro de 2008 20:52

Interessante... A história que aprendemos na escola diz exatamente o que você citou: Maurício de Nassau era invasor.
Mas hoje, se Recife tem muito da riqueza cultural, arquitetônica e urbanística preservada, foi por conta desse sujeito.
Seria o caso de o Brasil todo ir a Recife, conhecer, in loco, um pouco dessa história?

Viviane Righi disse...
19 de outubro de 2008 21:16

Eu já sabia que Recife tem muitas histórias para serem contadas. E você está fazendo isso muito bem. Parabéns!

19 de outubro de 2008 21:19

Morei em Recife no final dos anos 70.
Poucas lembranças, muitas fotos e um certo orgulho.

ED CAVALCANTE disse...
19 de outubro de 2008 21:21

Euzer, meu nobre, o Recife está de portas abertas! Pode vir!

Alexandre Silva disse...
19 de outubro de 2008 21:31

Boi voar? :o
hehehehe... interessante. Tudo relacionado à história assim é legal. Tenho vontade de conhecer o museu da resistência de Mossoró tb. Nordeste é cultura pura
Abraço
http://falandoprasparedes.blogspot.com/

Marta disse...
19 de outubro de 2008 21:43

Deu um banho de história!

Carioca disse...
19 de outubro de 2008 23:11

desconstrucao!
otimo post!

Veiga disse...
19 de outubro de 2008 23:36

bem legal...

gosto muito de história.

Veiga disse...
19 de outubro de 2008 23:36

http://www.trocistas.com/

DuDu Magalhães disse...
20 de outubro de 2008 01:35

Que bacana, como sou um futuro turismólogo, pretendo conhecer Recife. O marco zero deve ser o toddy

http://minhainspiracao.blogspot.com/