EU, O VIOLÃO, O MAESTRO NUNES E UMA BRISA ETÍLICA

Por ocasião da comemoração do dia mundial do rock, andei chafurdando meu passado musical para desencavar algumas fotos desse período. Acabei tomado pela nostalgia e viajei nessa lembrança. Na verdade, enveredei no caminho da música tardiamente. Tinha 21 anos quando decidi me matricular na escolinha de música da Banda de Frevos do Nordeste, mantida heroicamente pelo lendário Maestro Nunes, autor do conhecido frevo “Cabelo de Fogo”, um hit do carnaval pernambucano. Era 1986, época de Sarney e do Plano Cruzado, que congelou os preços das mercadorias e eu pude comprar meu violão Gianini, série estudante, que acabei batizando de John em homenagem ao meu beatle preferido.

Meu primeiro dia de aula virou fábula entre os amigos. Já contei essa história um milhão de vezes. Cheguei um pouco atrasado e na pequena sala decorada com notas e claves, já estava uma meia-dúzia de alunos. Estranhamente, ninguém sentado em frente ao birô do velho mestre. Todos bem localizados em lugares afastados. Achei que era medo da aula e resolvi sentar na primeira fila. Ouvi alguns risinhos disfarçados mas permaneci impávido, prostrado diante do birô à espera do mestre.

Alguns minutos depois, entra o velho maestro com a aparência debilitada e mãos trêmulas. Depois de uma breve apresentação ele nos convidou à primeira aula de solfejo: “Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó – Dó, Si, Lá, Sol, Fá, Mi, Ré, Dó”. O breve cantarolar dessas notas jogou no meu rosto uma brisa etílica que me deixou enebriado, quase bêbado. Sentei-me duas fileiras atrás e contemplei, debaixo dos disfarçados risos dos outros alunos, o restante da aula.

Minha passagem pela escola da Banda de Frevos do Nordeste foi breve, mas percebi o quanto o dom é importante. Enquanto eu, literalmente, brigava com meu violão para aprender os primeiros acordes, via o jovem Carlos, ex-menino de rua, que depois de alguns meses em contato com o instrumento, passou a dar aulas (e shows) na escola. Que ódio! Brigo com o violão ( e com a guitarra) até hoje, menos do que devia, é certo. Ficamos um pouco mais íntimos, mas o tal do dom, esse me ignorou desde o nascimento.

Abaixo, um vídeo raro em que o velho mestre rege uma orquestra que interpreta o grande frevo "Cabelo de Fogo".

Comments

4 Responses to “EU, O VIOLÃO, O MAESTRO NUNES E UMA BRISA ETÍLICA”

Bete Meira disse...
21 de julho de 2010 22:15

Nunca é tarde para estudar, crescer, mudar, evoluir, Ed!Parabéns por tentar, sempre!Seus atuais encontros etílicos se inspiraram nessa primeira brisa?
Será que esse frevo foi escrito em minha homenagem???

26 de julho de 2010 19:50

Bons tempos e momentos aqueles em que nos reuníamos no intervalo lá na sala dos professores no Jordão Emerenciano (2007) para ouvir Ed cantar e tocar violão.

ED CAVALCANTE disse...
27 de julho de 2010 10:51

Tenho exercitado pouco ultimamente, mas, pretendo mudar isso. O violão ajuda a esquecer os problemas da vida.

Abraço!

Bete Meira disse...
27 de julho de 2010 22:27

Era louca pra aprender violão!Enchi tanto que ganhei um muito bom, mas quando finalmente uma amiga se dispôs a me ensinar, pouco tempo depois, de manhã cedo, andando de bicicleta na rua, teve a vida adolescente ceifada por um louco guiando um táxi. Adeus minha querida amiga Mildred e o violão perdeu a graça.Emprestei ao veio Mangaba que deu fim a ele, nunca mais tive notícia,kkkkkk. Bem que me ajudaria a esquecer os problemas da vida...