ODEIO PARABÓLICAS

Aprendi desde cedo que um dos maiores bens que a pessoa tem é a sua identidade cultural. Quando era garoto costumava ir ao bairro de São José (centro do Recife) com meu pai, que trabalhava por lá. Sempre fui fascinado por aquele lugar, que conserva até hoje traços do passado. Os trilhos dos bondes ainda se estendem nas Ruas das Calçadas e Direita.

Aos sábados, naquela época, sempre tinha um maracatu tocando para animar o povo. Muita gente ignorava a riqueza daquela manifestação cultural. O popular, estupidamente, era visto como inferior. Já vi, inclusive, grupos de maracatus serem vaiados em pleno Pátio de São Pedro. Anos depois, no início da década de 90, (século passado) Chico Sciencia – contestado pelos puristas – adicionou guitarras e grooves ao som do maracatu e aproximou a velha manifestação cultural dos jovens. Não, ele não maculou o maracatu como apregoava, na época, o purista Ariano Suassuna. Depois da injeção dada por Chico, as pessoas (sobretudo os jovens) passaram a ter orgulho de ser Pernambucano.

Quem frequenta o Pátio de São Pedro ou o Mercado da Ribeira, em Olinda, não assiste a apresentações de maracatus com guitarras. O efeito Chico Science trouxe de volta o maracatu de raiz. Alfaias e abês voltaram a ser brinquedos de criança. Sonho em ver o frevo passando por um processo desses. Os blocos líricos já estão de volta com muita força. Na rua da Aurora (centro do Recife) há pelo menos uma década, acontece uma importante prévia carnavalesca que reúne os mais expressivos blocos líricos de Pernambuco. Estamos recuperando a identidade cultural.

Por outro lado, na maioria das cidades do interior, a antena parabólica está provocando um efeito inverso. As pessoas sintonizam os canais do sudeste e acabam absorvendo a cultura de lá. Ao invés de assistirem aos telejornais daqui, se inteiram das notícias de lá. Tenho amigos no interior que falam sobre isso de forma muito natural. Além das fronteiras da área metropolitana do Recife as pessoas torcem pelos times do centro-sul. ACULTURAÇÃO é o termo correto para designar esse fenômeno midiático. Odeio as parabólicas!

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