A TRISTE VIDA DAS PESSOAS PERFEITAS

Sim, elas existem, tenho observado de longe alguns exemplares de seleto grupo de seres que se dizem humanos. Falo assim porque os humanos de verdade, por vezes, falham, transgridem, isso faz parte da vida. O que diferencia os bons e os ruins, é a medida em que essas transgressões acontecem. Os de índoles maleáveis, claro, fazem parte do “lado negro da força” porque transgridem cotidianamente.

Em geral, o grupo dos perfeitos é composto por pessoas tristes e solitárias que parecem brigar com o mundo todos os dias. A perfeição os impede de se relacionarem bem com os outros. Como conviver com as falhas e as transgressões alheias sem se aborrecer? Impossível para eles. Para os outros também é difícil. Não sabemos, ao certo, como lidar com a “pureza” dessas pessoas. Na dúvida, melhor não arriscar. É por aí que nascem as barreiras, os campos minados e todos os biombos que separam o seleto grupo dos perfeitos do resto dos pobres mortais.

Os perfeitos jamais tomaram aquele porre homérico que você tomou na juventude, não correram na chuva por medo do resfriado, nunca pisaram na grama ou repetiram a sobremesa. Jamais, em hipótese alguma, tocaram a campainha e correram, nunca enfiaram o dedo no bolo, não jogaram aviãozinho de papel, não colaram chiclete embaixo da banca, nunca filaram. Até na Bíblia – Eclesiastes 3 – a variação de conduta é defendida, há tempo para tudo, mas as pessoas perfeitas ignoram isso. Como é difícil encontrar iguais, os poucos que existem quase não têm amigos porque ninguém suporta a chatice deles. Na certeza de que mudarão o mundo perdem o precioso tempo da vida franzindo a testa ostentando um ar de superioridade alegórico, feito de papel marchê. Algum dia quando, por descuido, tomarem aquela chuvarada, o cenário cairá e eles se arrependerão do tempo que perderam na utópica luta para serem perfeitos.

Comments

One response to “A TRISTE VIDA DAS PESSOAS PERFEITAS”

Ricardo Santos disse...
9 de agosto de 2012 20:54

Como sempre sua jornália meu caro Ed. é muito, muito boa mesmo, e a supresa é que até embasamento teológico você dá para este artigo em especial, gostei e vou guardar para utilizar como ilustração em uma futura "homilia" quem sabe.
Grande abraço,
Ricardo Santos.