RELIGIÃO E FUTEBOL, TUDO A VER

Sempre ouvi dizer que “não se deve discutir religião e futebol”. Contraditoriamente, esses dois assuntos, por natureza, fomentam uma boa discussão. Na verdade, o recado embutido na frase quer dizer que “não é prudente discutir esses dois assuntos”. O porquê todo mundo sabe, tanto o futebol quanto a religião lidam com  sentimentos humanos: paixão, fé, devoção e, as vezes, a razão.

Há pouco, quando postava numa rede social umas fotos antigas da época da faculdade, dei de cara com a imagem de um adorável professor: Jorge Santana(de óculos) . Das suas complexas aulas sobre como elaborar um projeto baseado na lógica, guardei um importante recado. Apontando uma espécie de linha do tempo que ordenava as etapas de um projeto, ele explicou: “Até essa fase aqui a elaboração do projeto segue sem grandes atropelos, a partir dessa outra etapa aqui começam a surgir os grandes problemas. Tudo porque entra no projeto os seres humanos. Você vai ter que lidar com vaidades, desejos particulares, é muito difícil administrar isso”.

O que o Professor Jorge  explicou há décadas é exatamente o que tento transmitir nesse post. No caso da religião o problema ganha uma dimensão incomensurável porque muitos dedicam a vida - na Terra e num suposto plano superior – por essa causa. Se a religião pudesse ser discutida apenas no âmbito da razão, quase tudo que está escrito nos livros sagrados seria facilmente refutado. Como explicar a “Arca de Noé” e o “Sopro do Barro” caminhando na inflexível linha da lógica? Impossível. Pois bem, se o assunto não pode ser tratado com argumentos lógicos, não vale a pena discutir, no final prevalecerá o interesse e a crença de cada um.

Absolutamente tudo que foi dito no parágrafo anterior se aplica ao futebol. Tenho um amigo – que vou preservar o nome, claro – que é formado em Física, se diz agnóstico mas, quando vai assistir a um jogo do Náutico, seu clube do coração, senta sempre no mesmo lugar. O argumento é dos mais esdrúxulos: “Da ultima vez que sentei num lugar diferente fui testemunha da triste Batalha dos Aflitos. Culpo-me até hoje por isso”. O danado que ele fala sério, não é piada. Quando a paixão e a fé cega tomam conta da mente, o resultado é esse.

Mas, ao contrário do que imaginam meus desafetos – tenho alguns – eu acho a religião um negócio fantástico. Atualmente, enquanto você lê esse post, dezenas de guerras acontecem pelo mundo afora. Segundo o Conselho de Segurança da ONU, 80% desses conflitos têm cunho religioso. Basta rebuscar um pouco a memória para lembrar dos últimos grandes conflitos e atentados ocorridos no planeta. Na década de noventa, teve a “Guerra dos Bálcãs”. Nesse embate – ocorrido por conta da dissolução da antiga Iugoslávia – os sérvios, cristãos ortodoxos, perseguiam os habitantes do território de Kossovo, na maioria muçulmanos de origem albanesa. A PrimeiraGuerra do Golfo confrontou os árabes, muçulmanos, com os cristãos comandados pelos Estados Unidos. Uma década depois, as torres do World Trade Center tombavam tornando-se os maiores símbolos desse conflito.

As torcidas organizadas experimentam, no futebol, o mesmo ódio que os fundamentalistas cristãos e islâmicos praticam na política internacional. Não estranhe o adjetivo “fundamentalista” associado ao cristianismo. O que os presidentes estadunidenses e os líderes políticos europeus ocidentais vêm praticando nas últimas décadas é o mesmo que os terroristas islâmicos fazem. Só que em escala muito maior e com muito mais liberdade.

Apesar de tudo, ainda troco umas ideias sobre futebol e religião com meus amigos e na sala de aula pois, lecionando história, o dever me obriga. Até brinco com meus alunos em dia de prova: “Não filem (colem) porque quem fila vai para o inferno”. Ao menos nesse momento, a punição eterna é tratada com um adorável desprezo. Ouço sempre alguém gritar: “Então estamos todos no inferno, professor”. Cabe ainda uma lembrança do futebol: quando vou ao estádio, a saída é sempre tensa porque a torcida organizada do meu clube, a Inferno Coral (junção do pior do futebol, a violência, com o pior da religião), promove a desordem. Se vivo, certamente, Karl Marx reformularia sua famosa citação: “A religião e o futebol são o ópio do povo”.

Comments

4 Responses to “RELIGIÃO E FUTEBOL, TUDO A VER”

Ricardo Santos disse...
14 de julho de 2012 23:47

O problema professor é que como diziam os antigos do poder romano "o povo precisa de pão e circo" ou seja: pega os cristãos prende, bota num grande campo como o arruda juntamente com leões para ser devorados, enquanto isso vamos distribuir pão para que o povo tenha espetáculo e um bocado pra comer, e assim vamos esquecendo de reinvindicar o nosso direito, e haja bolsa "esmola, vale coxinha e outros". Sobre a discussão de futebol e religião, acreditamos que como dizia um grande professor da Universidade Federal de Pernambuco o Lúcio Lombardi, que tudo se discute sim, ele dizia isto em relação ao "gosto" dizia que gosto se discute, para que possamos aperfeiçoar, aprender, burilar o gosto, ou seja formar. Acredito que em relação a religião isto também pode ser verdade e também no mínimo devemos estabelecer um diálogo respeitoso com outras religiões

Normando Robeto disse...
14 de julho de 2012 23:50

Em religião temos muitos elementos para uma discussão, temos pessoas que tomaram decisões certas e outras que tomaram decisões erradas. O mundo tem como base as religiões, a criação e também a destruição. Quanto ao futebol, uma criação recente, eu mesmo não gosto de tudo do futebol, não perco o meu tempo com ele. Sou um apreciador à distância. Para mim é uma cultura inútil, perde-se muito tempo na mída com ele, com o futebol, não se discute nada, não leva a nada, para alguns que enchem os bolsos de platas; apenas perder, ganhar ou empatar.

ED CAVALCANTE disse...
14 de julho de 2012 23:51

Normando, concordo quanto a religião, já o futebol, acho, é muito mais do que pensas. Tio Richard, concordo com tudo.

18 de julho de 2012 22:32

Ed, esse seu post expressa o que penso e o que sinto.
Não gosto de discutir religião, nem futebol, mas há momentos em que sou forçada, mas muito sutilmente.
Quanto a religião o mais importante é respeitar a opção do outro.
Sábado passado perdi toda a minha razão, quando alterei minha voz, por falta de respeito por parte do meu irmão para com minha escolha. E isso eu não tem cabimento algum.
Xeros